27.4.26

CXLVIII

Portishead, “Over” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=M75AWXgRWP8


Oh, this uncertainty is taking me over.


Sou aquele que não tem paciência para as reuniões do condomínio. Sou aquele que detesta a moralidade vertida sobre os outros e, contudo, não resiste a deixar em ata mental advertências que não deixam de ser intenções morais. Sou aquele que depressa cai numa contradição, apesar de viver cercado pelo fantasma da coerência, num apelo limítrofe à perfeição que sei ser impossível. Sou aquele que promete não vociferar no trânsito nem insultar outros condutores e, à primeira contrariedade, deixo a promessa deserta. Sou aquele que ambiciona a condição de cidadão exemplar, enquanto no íntimo a consciência renega o estatuto com a sua prática de vida.

Somos intenções do que não conseguimos ser. Talvez seja a melhor homenagem à imperfeita condição que nos é inata e que não devia ser um sobressalto contínuo. É errado confundir imperfeição com impureza. Ser matéria corrompida só aumenta a angústia quando tentamos convencer-nos de que podemos ascender ao olimpo dos exemplares. Mas não há ninguém que seja exemplar. As vidas plúrimas, que abrigam tantas facetas, não podem ser exemplares. 

Quando se admitem fragilidades e um rol de incoerências navega à superfície, contrariando a projeção exterior que foi congeminada, é uma fraqueza que desmente as imputações de perfeição que possam gravitar à nossa volta. Não é um ardil escondido: não é  alguém que se desmonta de cima a baixo, expondo-se como paradigma do desexemplo, para entrar no bodo dos desafortunados que descem à escala dos infernos, ao lugar onde ninguém se encontra em pior condição. 

Não se trata de um movimento de autoflagelação nos antípodas do narcisismo, ou um narcisismo virado do avesso. É uma desconstrução genuína que desmonta as aspirações de ser exemplar. Não somos os deuses que intuímos quando a soberba nos ultrapassa e aparentamos ser singulares. Mas também não somos indigentes que não procuram redenção nem a comiseração dos outros, irremediavelmente perdidos para a contabilidade da espécie. 

Somos o sangue espontâneo que em nós circula, nem menos nem mais. Com todas as fragilidades tatuadas que não são motivo para condenação terminal.


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