7.4.26

CXXXIV

Fontaines D.C., “Starburster”, (live at Later with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=1UEF7lAY5FE


“(...) I wanna bounce the bone, I wanna mess with it

I wanna lay the deville, the whole crew on the sill

I want the preacher and pill, I want bless with it (…). 


De ciência certa: amanhã é quarta-feira e depois é quinta-feira. Nessa altura, ainda faltam dois dias para o fim de semana. Se todos os oráculos fossem assim, o futuro deixaria de ser futuro. E os profetas perderiam estatuto, desagravadas as suas profecias por falta de futuro.

Um dia, um rapaz perguntou: como pode uma ciência ser ciência se os peritos não concordam com os seus termos? Expliquei que há ciências que são propositadamente inexatas. Só são ciências porque se escondem da convergência forçada que existe nas ciências exatas (até alguém revelar uma descoberta e superar o que dantes era exato). As ciências também são certas quando os peritos não concordam com os seus termos. É por isso que se tornam ainda mais ciência. E mesmo que os peritos não concordem, sempre se dirá que o ponto de partida é de uma ciência certa.

Haverá boa e má ciência – até há os que se presumem tutores de uma ciência que não atinge os mínimos para ser admitida ao palco das ciências, sem que percam a sua catedrática pose. Para quem se quer situar perante o mundo, a alforria alcança-se com o apoio de ciências variegadas que procuram dar resposta às perguntas de onde se parte. 

De ciência certa, há ciências adulteradas, ou usos abusivos da palavra “ciência”, que transfiguram o conhecimento. Uns, intencionalmente, preferem a ocultação das ciências reconhecidas e reveem-se em nacos disformes de conhecimento sem alicerces, crendices não credenciadas que sepultam o rigor das ciências e acolhem uma amálgama desestruturada de verdades feitas e mentiras que renegam a ciência reconhecida. Outros aderem, sem querer, a essa amálgama, nuns casos por ter sido a primeira amostra de conhecimento que chegou ao seu conhecimento, noutros porque se torna o conhecimento de mais fácil adesão pelo simplismo que dispensa as exigências intrínsecas da ciência estruturada.

De ciência certa, sem admitir a nata especulativa que assenta sempre à superfície, podendo ocultar as camadas mais fundas e densas, aquelas onde reside o conhecimento, parte-se de demanda em demanda na árdua empreitada de quem não se contenta com respostas e prefere perguntas em doses sucessivas. As perguntas atropelam as respostas: formular as perguntas exige menos tempo do que o tempo consumido na demanda por uma resposta. Pois a ciência que sublima todas as outras é a que ensina a fazer perguntas. 

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