Beck, “Ride Lonesome”, in https://www.youtube.com/watch?v=VqQmgHcIHN0
“Yesterday
paper roses, they forgot to bloom
so walk away
hang your head upon the hollow moon.”
Encurralado na dorna onde se afeiçoam os costumes que cimentam códigos de conduta, atraiçoado pela bússola avariada que funde os sentidos. Voluteiam teorias da conspiração em barda. E depois ainda mais teorias da conspiração sobre as teorias da conspiração. Já poucos se incomodam em decantar os efeitos ilusórios que são logros para o olhar.
Este encurralar é como ser perseguido e sentir-se na posição da presa. O acosso constante, o sussurrar distante dos caçadores, o coração acelerado num instante, os baldios atravessados na sua espinhosa feição, os esconderijos evitados que podem ser apenas armadilhas deixadas pelos perseguidores. É como são as teorias da conspiração e a sua antítese: não passam de uma reprodução delas mesmas, as teorias da conspiração sobre as teorias da conspiração. As camadas somam-se umas às outras, uma teoria desmentindo a teoria que é seu ponto de partida, sem demorar a ser contestada por uma terceira teoria que a desmente sem restaurar a primeira. A verdade fica em surdina, esmaecida, à espera de se tornar um corpo refratário.
A coreografia das concorrentes teorias da conspiração é um mexer de corpos desconjuntados, a coreografia, ela própria, um hino ao caos em movimento (ou ao movimento reduzido ao caos). A lucidez em cacos, estilhaçada, espraia-se pelo chão, oferecendo um chão pontiagudo que fere os pés de quem não se intimida com a profusão de loucura malsã que enxameia as ruas. As teorias da conspiração que se sobrepõem são como aquele ensaio lúdico que consiste em entoar repetidamente uma palavra até que ela se esvazie de significado.
No concurso de conspirações, encurralados na interminável esgrima de argumentos forjados e de factos inventados, reféns da cortina de fumo que embacia os olhares sucessivos, é como se as pessoas fossem despidas do que são e passassem a ser autómatos que seguem cegamente as prescrições inventadas para os despreparos do mundo. Até que sejam meras farsas de atores inventados para serem metáforas fingidas do que julgavam ser.
O que nunca disseram sobre as teorias da conspiração e sobre as suas negações constituídas noutras teorias da conspiração é que deixámos de saber quem éramos antes de sermos atirados para dentro do palimpsesto de conspirações.
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