4.12.18

Teoria geral da teoria geral


The Album Leaf, “Twenty Two Fourteen”, in https://www.youtube.com/watch?v=3yv6Gn911uc
Não digo que não haja torniquetes que desabilitam ideias. Elas medram no almofariz, de onde exalam seus particulares odores à procura de alguém que se deixe seduzir. Não podem aspirar à perenidade. Ou melhor: uma ideia, assim que é formulada, pode ter conquistado direito ao perene, mas não se sabe, no momento da sua criação, se esse será seu estatuto vindouro. Podem ficar seladas em páginas de livros; têm todo um potencial de representação futura, até se perderem na vastidão da memória – até ficarem apenas como nota de rodapé na moldura das bibliotecas onde ganham poeira. 
Talvez o grande problema com as ideias seja que os seus fautores aspiram à perenidade. E ao reconhecimento. É a medida certa para a adulteração das ideias. O prodigioso sedimentar do raciocínio devia ignorar o chamamento exterior que se pespega, como vício contaminante, às ideias que não se querem afirmar desinteressadamente, como esteios de uma saudável esgrima de ideias, mas como forquilha que se crava no dorso das rivais, derrotando-as. O marasmo imberbe é orquestrado pelos campanários convencidos que vertem águas de superior qualidade. 
Não é para isso que servem as ideias. Não é essa a serventia da esgrima de ideias. Talvez a metáfora não seja acertada, pois na esgrima terçam-se as espadas até que um dos contendores salde, triunfante, o pleito. A esgrima das ideias é mais como um mercado, onde as ideias se expõem às pessoas que, por sua vez, se expõem às ideias à sua frente expostas. Não se pode, por metodológica cautela, travar o passo a qualquer ideia. Mesmo às que, à partida, possam parecer soezes, hediondas, canhestras, “socialmente reprováveis”. Não se confundam os planos: este preceito geral não corresponde à normalização de ideias (sobretudo políticas) que constituem entorse aos valores que a civilização, com o beneplácito da maioria que a cauciona, tem como alicerces. Nem deve ser uma porta aberta àquilo que consideramos aberrações, danos perpetrados aos valores que, enquanto civilização, aceitamos como aceitáveis. As civilizações não são inertes. Acomodam-se, com o lastro do longo prazo, às variações demandadas por transformações.
A teoria geral da teoria geral é um quadro mental superior que parte do princípio de que nenhuma ideia, por mais abjeta que pareça quando filtrada pelos nossos valores, deve ser proscrita. Ao nível expositivo, todas merecem o benefício da dúvida – não como manifestação de complacência, nem – convém repetir – como exercício de normalização de ideias emergentes depois de terem sido criminalizadas outrora. Merecem o benefício da dúvida para serem ouvidas, lidas, contrapostas, interrogadas, levadas ao palco da experiência no que contraditório diz respeito. Sem a teoria geral da teoria geral, tudo está contaminado à partida. Não se aceitem brigadas (que são sempre autorrepresentativas) para nos dizerem o que é aceitável e o que merece reprovação. Não sem antes sermos informados, e de preferência através de fonte direta, das ideias que nos interessam cotejar.

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