Angine de Poitrine, “Sarniezz” (live at Later...With Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=dQkrXS4fqBU
Se calhar, é por causa da silly season (que injusta maldição lançada sobre agosto, quando o agosto rima com mês de férias para a maioria), mas bateu nos meus ouvidos, enquanto almoçava e estava de costas para a televisão, o seguinte diálogo num programa sobre moda num canal nacional:
- Entrevistadora: Numa exposição internacional, como se distinguem os sapatos portugueses dos sapatos italianos e dos sapatos franceses?
- Criador de sapatos nacional, sem pestanejar: Através da alma portuguesa.
À menina, comprometida com a pose continuamente risonha com que empresta o rosto às câmaras, não ocorreu perguntar ao criador de sapatos portador de pose solene quais são os traços distintivos da “alma portuguesa” e de que forma a “alma portuguesa” se contagia às suas criações de calçado. (Numa formulação alternativa, a apresentadora podia tentar saber, junto do estilista de sapatos, como se embebem os sapatos de “alma portuguesa”.)
Deve ser da silly season que entrou com força assim que o mês de agosto depôs julho e muitos de nós entrámos no estado de hibernação intelectual próprio das férias garantidas por direito constitucionalmente averbado. Invocar a “alma portuguesa” como predicado dos sapatos exige um raciocínio elaborado, não é suficiente dizer que sim, porque sim. Caso contrário, não somos capazes – e menos ainda o é o consumidor de outros países para se convencer a comprar um par de sapatos made in Portugal – de fazer corresponder a “alma portuguesa” ao produto que nos protege os pés. Sem a sua caracterização, é um conceito vazio, não passa de um lugar-comum que arrebata os patrícios mais patriotas, mas dificilmente arregimentará compradores de outros lugares, certamente mais interessados em atributos como a estética, o conforto, a qualidade e o preço.
Por isso convoco pela terceira vez a silly season, que tem as costas muito largas durante o mês de agosto. Só a silly season permite compreender que se recorra ao ininteligível, ou a conceitos vagamente delimitados (ou nada delimitados, como foi o caso vertente), ou a fórmulas vazias de conteúdo que remetem para um imaginário coletivo que, à partida, facilita o cimentar de fidelidades sentimentais em relação a uma determinada mercadoria pela sua correspondência nacional.
Sem sabermos em que consiste a “alma portuguesa” não estamos em condições de aceitar que o traço distintivo dos sapatos portugueses é a “alma portuguesa”. Para o entender, não é preciso ser estilista de sapatos ou entrevistadora de televisão que conduz as suas entrevistas com ligeireza. Só é preciso saber um pouco de argumentação e, dá jeito, filosofia, para alinhavar um argumento deve ter cabeça, tronco e membros (para usar um lugar-comum que aos mais aligeirados permita perceber o que se exige para fazer passar uma mensagem sem ser uma frase vazia ou outra que se autojustifica sem ser convincente).
Talvez o estilista pudesse dizer, em sua defesa (se a entrevistadora não fosse refém da sua ligeireza), que a “alma portuguesa” é um conceito abstrato. Defendia-se, muito embora se pusesse a jeito de uma pergunta sucessiva que podia determinar o seu funeral lógico: e o que é um conceito abstrato? Talvez seja abstrato de mais para desembaraçar os seus traços concretos, pois, em sendo abstrato, não é suscetível de concretização que exaurisse a sua natureza abstrata (acrescentaria eu, em proposta de argumentação justificativa).
Só que, nesse caso, tanto poderíamos dizer que os sapatos levam com a “alma portuguesa” como as latas de sardinhas, um garrafão de cinco litros de vinho tinto corrente e – quem sabe? – o lenço dandy que o estilista envergava ao pescoço, ou o gin tónico que a entrevistadora teria (especulativamente) tomado ao entardecer, depois da filmagem do programa.
No mundo hodierno, onde as fronteiras que separam o que é produzido aqui e ali se esbatem com a homogeneização intrínseca à globalização, pode-se invocar a “alma portuguesa” até para o melhor sushi confecionado no Japão – ou assegurar que em tudo o que seja produzido algures se encontram fragmentos vivos da “alma portuguesa” (então não fomos nós que “demos novos mundos ao mundo”?). Por este andar, todo e cada produto vendido e comprado no mercado internacional tem fragmentos de almas de múltiplos países. E assim se esboroa pela raiz o argumento da “alma portuguesa” como característica do calçado português.
Ou, talvez, a “alma portuguesa” seja um atributo silly season – ou a época silly season esteja trespassada de “alma portuguesa”. Como o estilista perito em frases inanes (de “alma portuguesa” e de silly season doze meses por ano).
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