11.8.26

Rock the Casbah (short stories #517)

The Clash, “Rock the Casbah” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=pD034gjGD4M

          Os óculos nunca saem da frente do olhar. Os pequenos detalhes, a filigrana que se antepõe entre nós e divindades imaginadas, compõem a semântica do tempo e do espaço. Metemos por uma rua gasta, que é, todavia, nova para nós. Devolvemos a sua integridade através dos passos neófitos que a açambarcam aos nossos pés. Os mercadores salivam propostas de comércio, vão disfarçando a generosidade em camadas sucessivas, como se a cada demão de verniz caísse uma máscara e outra e outra. Sabemos, pelo tom das ladainhas, que os sons guturais não querem mal aos fregueses. Se não fosse pelo que se merca, não haveria tradição entre pessoas que habitam em lugares diferentes. Os sons e os cheiros e os vocábulos que compõem idiomas ininteligíveis sabem a casa quando somos forasteiros e os vamos decifrando à medida que os passos se somam pelas ruas cheias de passado. Mas nós também temos passado. Doamos parte desse passado aos mercadores que ocupam as ruelas estreitas enquanto o vozear gongórico, a soma caótica dos pregões que procuram convencionar os fregueses, vai ficando tatuado na pele. Não se é snob ao tentar perceber os usos e costumes que são estranhos. Aprender com os outros sempre foi a melhor maneira de fazer avançar o mundo. Quanto mais aprendemos com a constelação de gentes e línguas e costumes, mais nos fazemos cidadãos plúrimos, um mosaico de diferentes lugares e tempos. A noite é noite em todos os lugares. Pode ter um vocábulo diferente a tutelá-la nos diferentes lugares, mas não se desleixa enquanto noite. As pertenças arrumadas em gavetas estreitas são uma miragem, um atavismo que merece ser denunciado. Somos tão nativos dos lugares forasteiros como os nativos assim que andamos pelas mesmas ruas, comemos nos mesmos restaurantes, nos extasiamos com os mesmos odores, aprendemos vocábulos do idioma local. E isso merece uma dança ao som de uma música que teça a ponte entre as culturas.

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