19.8.26

Torcicolo

Radiohead, “2+2=5” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FxlYPR8MEvY

Apanha as linhas direitas como se estivessem tortas. Pensa: deve estar com o olhar, ou pelo menos o pensamento, oblíquo. Não se apoquenta. Os ângulos de aproximação aos objetos são como as obras de arte, exigem margem para uma apreciação que não pode deixar de ser subjetiva.

Quando lhe dizem que uma curva à esquerda é, afinal, uma curva à direita, o seu espírito desassossega-se. Como pode alguém dizer que uma curva à esquerda é para a direita? A resposta improvável não demora: a curva que para ti é a esquerda é para a direita para quem circula em sentido contrário. Não se deve ficar refém dos determinismos que esgotam as possibilidades.

Assim se poupa a um torcicolo. Se teimasse em olhar para a direita quando a curva é para a esquerda, a relatividade e o peso dos corpos tratariam de fermentar um legítimo torcicolo. Em vez disso, o peso leve valida os olhares que de outro modo não teriam vez. Se as pessoas não se agarrassem a dogmas, se não procurassem verdades definidas à partida para casarem com ideias pré-formatadas, poupavam-se a torcicolos que se agarram contundentemente ao sangue quando descobrem que um sentido afinal tem um significado à partida improvável. Quantas deceções seriam evitadas a pessoas muito seguras de si mesmas quando descobrem que a sua direita é para a esquerda e vice-versa?

Não há bússolas infalíveis que atestem o paradeiro dos quadrantes. O busílis defuma-se nos interstícios das descobertas que sobem aos ramos da árvore onde entronca o conhecimento. O que somos de hoje não é garantia que seremos amanhã. Mesmo que seja preciso atravessar uns pares de torcicolos sequazes como critério para dissolver ideias feitas que agarram as pessoas a atavismos estéreis. 

O torcicolo é a fatura necessária para prevenir as fraturas do pensamento causadas pela rigidez da musculatura. É através dos torcicolos que aprendemos a ser flexíveis e a nunca deixar as perguntas em lugar incerto. 

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