Flea, “Maggot Brain”, in https://www.youtube.com/watch?v=I6rB5I7QV1Y
As pessoas com formação moral às direitas devem escolher os seus conhecidos se precisarem de distribuir sinecuras ou contratar serviços. É um imperativo de integridade. Os conhecidos e os amigos e os familiares são conhecidos, atributo que não pode ser estendido aos desconhecidos. Quem se insurge contra a preferência por conhecidos é hipócrita: desses, que levante o dedo o primeiro que nunca se inclinou a favor de um conhecido na hora H; ou quem nunca foi agraciado com um favor.
As pessoas escolhem os conhecidos porque os conhecem. Sabem com o que podem contar. É mais fácil confiar num conhecido do que num desconhecido. Um ministro não escolhe para seu assessor um desconhecido, precisa de alguém da sua confiança para o tornar conselheiro. Não pedimos conselhos aos desconhecidos (a exceção é aberta para os que, fracos de espírito, se refugiam nos braços de gurus de alma).
As pessoas ficam credoras de favores quando os recebem. Quem é destinatário de um favor não pode esquecer os cânones básicos da socialização (e da boa educação): um favor a seu favor determina a inscrição, na coluna das dívidas, de um dever vindouro. Em nome da gratidão, um sentimento que não deve ser renunciado quando um favor se aloja na coluna do haver. A memória fica penhora do favor futuro, para não cair em esquecimento.
A reciprocidade de comportamentos ajuda a compor a teia. Hoje concedo uma regalia porque lá atrás fui beneficiado por regalias concedidas. O povo popularizou o adágio segundo o qual temos de ser uns para os outros. Os adágios não são por acaso. A rede dos favores que exige futura retribuição em forma de favor começa a ser cerzida e segue a sua marcha imparável até se tornar um império. Todos fazemos favores e todos devemos favores. Não há melhor teia de solidariedade recíproca. A gratidão ativada (quando recebemos favores) e a generosidade desembaraçada (quando atribuímos benesses) estão entrelaçadas.
Se estes sentimentos estivessem ausentes do tabuleiro social, seríamos impessoais uns com os outros e não promovíamos a teia de favores que se fazem e se pagam como cimento social que impede a sociedade de se estilhaçar. Os que protestam contra a lógica de favores enraizada fazem-se passar por falsas consciências morais, atraindo a si os iludidos da moral republicana que esteriliza relações sociais, ou são farsantes que se amotinam em público contra o que praticam às escondidas, em privado.
O compadrio devia ser despido da conotação negativa que anda nas bocas do mundo tão a despropósito distraído.
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