18.8.26

Protocolo (short stories #519)

Nine Inch Nails, “Something I Can Never Have (Still)”, in https://www.youtube.com/watch?v=4dYyP0borq8

           Dizem que as pessoas que não seguem regras são impurezas de si mesmas, como se lhes faltasse uma bússola que as traz pelo caminho certo – elas detestam ser tidas como entes tresmalhados de um rebanho ordeiro que segue as regras, sem as quais, de outro modo, seriam imprudentes indivíduos perdidos em lugar incerto, que os lugares incertos são sítios não recomendáveis porque as pessoas de bem gostam de saber do seu paradeiro, não sendo de afastar a hipótese que as pessoas de mal também sintam desprazer por se saberem perdidas, sem poderem sindicar o horizonte que lhes dá, neste caso, desorientação – importa reconhecer que os protocolos existem para que as pessoas saibam por onde seguir, pois sem essa orientação não conseguem saber do seu paradeiro e fica-lhes mais difícil ordenar comportamentos que sejam entendidos pelos seus pares, pois é importante haver identidade com os semelhantes para que exista o cimento que os deixe como partes de um mesmo todo, as pessoas angustiam-se só de anteciparem a possibilidade de os demais não as considerarem parte do seu todo, o que equivale a uma geografia pessoal de orfandade identitária e essa é uma dor que as pessoas, em sentida homenagem à sua gregária condição que lhes é diligentemente ensinada desde os bancos da escola, não conseguem suportar para não serem coagidas a celebrar a atomização de si mesmas, o que transporta uma dor excruciante de quem é afastado dos grupos onde as pessoas afins (e as outras que forem acolhidas sem preconceito) convivem e através dessa convivência, e da sujeição aos protocolos necessários que lhes emprestam sentido de orientação coletivo, passam a ser tidas como parte de um todo a que querem pertencer, a menos que alinhavem uma escrita saramaguiana que desalinha dos cânones e possa ser entendida como um hino à ininteligibilidade intencional que afasta os demais de uma pertença que se qualifica como meramente individual.

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