26.8.26

O gato maldisposto

The Cure, “Lovecats” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=iSEhhRbLCG4

Desenvolveu uma teoria sobre o gato de rua que alimentava todas as manhãs antes de tomar o pequeno-almoço: o gato era oportunista, só aceitava festas antes de ser servido porque sabia que se seguia a primeira refeição do dia. Assim que enchia a barriga, afastava-se com desdém, recusava a tentativa de carinho. Soava a ingratidão. 

Com a passagem do tempo, o gato maldisposto foi dando o flanco. Não limitava as carícias ao período prévio da comida. Aceitava festas depois de comer, enquanto cuidava da higiene e limpava os bigodes, com o critério higiénico que é próprio dos gatos. À medida que o afagava, o gato serpenteava a coluna, que ficava numa posição côncava. Conseguia escutar um tímido ronronar. Aceitava-o como prova de confiança que tanto custara a conquistar. 

Um dia o gato seguiu-o e entrou no prédio. Parecia que queria deixar de ser um gato de rua. Não deixou que o pegasse ao colo, rejeitando a tentativa com um miar abrupto, sacudindo as mãos com as unhas à mostra. Olharam-se, ele com o regresso ao olhar desconfiado que só após alguns meses deixou de exibir. Virou as costas e olhou para a porta do prédio, a linguagem corporal e exigir que a porta fosse aberta para ele sair. 

Esteve três dias à revelia. Supôs que tivesse aparecido uma gata com cio nas redondezas, um gato adulto fica obcecado quando apura o cio de uma gata. Quando reapareceu, o pelo estava estragado e tinha um ar tristonho. Supôs que não tivesse conseguido cortejar a gata, os gatos concorrentes seriam mais fortes e ele ficou à míngua. Quando veio ter com ele, massajou o pelo e reparou numa ferida funda no pescoço, quase junto a uma orelha. Tinha sido um dente canino de um rival felino a marcar o terreno na dança do enamoramento com a gata cheia de cio. 

Enganou o gato e enjaulou-o para ser observado por uma veterinária. Não era grave. Ferida desinfetada e um ponto para encerrar a ferida, mais antibiótico durante uma semana. Quando chegou a casa, abriu a transportadora para perceber como o gato ia reagir: ia miar ruidosamente para abrir a porta? Aceitava o asilo e adotaria a casa como sua?

O gato estava maldisposto quando foi devolvido à liberdade. Atrapalhado, olhou felinamente nas várias direções, sem saber o que fazer. Não começou a miar. Andou pela casa, como se fosse um inspetor a esquadrinhar a qualidade de vida do lugar. Quando encontrou um sofá, acomodou-se, em sinal de aprovação da casa. Só saiu de casa dezasseis anos depois, quando a velhice levou a vida. 

Nunca deixou de lhe chamar maldisposto, apesar de nunca mais ter sido o gato maldisposto que conhecera no início. 

Sem comentários: