Moby, “Porcelain” (live at Montreux Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=RKaq-jSX7n4
Tréguas: “(Militar) suspensão temporária de hostilidades”. (In Infopédia)
Não sei se os arquitetos do mundo propositadamente o fizeram complicado de mais para o entendimento da pessoa comum, e mais ainda das crianças que comecem, talvez prematuramente, a mostrar interesse pelas andaduras do mundo. Ou se a semântica é atraiçoada por homens outros que, no comando de exércitos e mergulhados a fundo numa guerra, atraiçoam o sentido comum das tréguas (o que se extrai de um dicionário). A empreitada não é fácil para os cidadãos do mundo que se queiram inteirar sobre as voltas e reviravoltas que o mundo dá sob a ordem de mandantes inescrupulosos.
Acontece amiúde: os beligerantes assinam as tréguas, por definição temporárias (ver o sentido da palavra no dicionário). No dia seguinte, disparam balas e bombas, com acusações cruzadas: é sempre o inimigo que deu o mote, o outro limitou-se a ripostar na mesma medida, e vice-versa. Os inimigos não se conseguem capacitar que pouco interessa quem dedilhou o gatilho em primeiro lugar. Tanto incorre nessa violação o que rompe as tréguas em primeiro lugar, como o que retaliou só porque a honra militar e o pundonor pátrio exigem que a afronta do inimigo não fique sem resposta.
Se perguntarem aos políticos que estão na retaguarda dos militares, dirão, com ar tão cândido como conspurcado, que as tréguas estão vigentes e que os disparos registados foram incidentes isolados que não prejudicam a “suspensão temporária das hostilidades”. Se morrerem inocentes durante as tréguas, dirão que foi um efeito colateral, um incidente. Essa é a sua forma de encarar o (des)valor de uma vida humana.
Já o cidadão do mundo que anda com os sentidos acordados para as beligerâncias, e que se limitam a confirmar a autofagia da espécie humana, deixa de perceber como é possível fazer durante as tréguas o oposto daquilo para que as tréguas foram feitas. Os famosos realistas, que ditam o compasso das Relações Internacionais, apressar-se-iam a explicar, naquela língua de trapos que é típica de muitos deles, que as tréguas não são um armistício. Ainda que a consulta ao dicionário revele que “tréguas” e “armistício” são sinónimos, os peritos das andaduras do mundo dirão que o armistício acaba com uma guerra, não tem a natureza temporária das tréguas.
Para os cardiologistas do mundo, os que identificam as cardiopatias que fazem o mundo frequentemente estar em desanda, é legítimo que os beligerantes se socorram do arsenal durante as tréguas, sem que as tréguas sejam oficialmente desmentidas. As pessoas comuns, e mais ainda as criancinhas, aprenderão, com as dores próprias de quem esbarra numa parede e sai da experiência com uma concussão cerebral, que é possível defender uma coisa e o seu contrário sem cair em contradição.
Assim é o jaez deste mundo que habitamos.
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