Morrissey, “Suedehead”, in https://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q
I
Os destroços da noite arqueiam-se sobre os sonhos. Os corredores puídos tecem medos que tudo colonizam com o silêncio. No tirocínio do dia, a janela aberta transpira a maré baixa. Em vez da agonia causada pelo pesadelo recente, o vazio da manhã desembaraça o novelo da quietude que oxalá se abraçasse ao tempo consecutivo.
II
São tantas as pessoas, os rostos desconhecidos, a impaciência que se deita em forma de motim, o entardecer que irradia a claridade desmaiada como metáfora do dia que decai no seu lampejo de finitude. Os lugares são sempre forasteiros.
III
As coincidências são apenas coincidências. Não atribuía significado, a não ser o jogo fértil dos acasos que se sobrepõe à memória cabalística. Os suores frios percorriam o mapa do corpo, dedilhavam múltiplos labirintos que o tornavam um enigma. Não há dicionários que descodifiquem esta complexidade.
IV
Os bichos são bichos com alma como gente. Daquela vez que viu um homem a pontapear um cão vadio que teve o azar de aparecer na mesma rua (um caso típico de hora errada no lugar errados – para o cão), cruzou a rua e, iracundo, inaugurou uma nova fase da sua vida: a agressão física. Considerou-a legítima defesa, enquanto procurador do cão. A seguir, recebeu o cão em sua casa. Guardou com orgulho a cicatriz nos punhos como prova de ter esmurrado o homem sem alma que tinha agredido o cão com alma respeitável.
V
O dia estava sempre aberto a traduzir os sonhos da noite anterior. (Os de noites pretéritas a ela já tinham prescrito.) De repente, uma sucessão de acontecimentos, ou uma palavra que desata o nó górdio do sonho, a revelação irrompia. Mas um sonho é só um sonho. Sempre ouviu dizer que a dependência dos sonhos é uma substância proibida; uma droga, em português simplificado. Aos que abjuravam os sonhos dos outros, apetecia oferecer-lhes um módico de alma para se humanizarem e desistirem da atalaia dos sonhos que não eram seus.
VI
O Outono, ainda uma miragem, sossegava-o enquanto se debatia com a tortura do suor. Reconfortou-o pensar que ninguém consegue fugir à sua agonia. A paciência astutamente treinada teria de provocar a hibernação. Nem que fosse em forma de sonho(s).
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