2.5.11

Os jarretas


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Há algo de enternecedor quando quatro senadores que passaram pela presidência da república aparecem como carpideiras. Como se adejassem sobre os malandros da classe política que descomandaram o estado da república de que se acham tutores. Dois deles estiveram tempo de mais à frente de governos. Como podem dizer que o caos de agora se deve à inépcia dos mais tardios? Como pode o anterior inquilino teimar naquela pose de superioridade moral, receitando soluções que todos devíamos ter a notável capacidade de perceber e que só ele, ó invejável mente brilhante, conseguiu diagnosticar?
Houve um que puxou lustro à seguinte sentença: se estamos nesta profunda crise, tanto que até foi preciso convidar uma trupe de estrangeiros para pôr em ordem os desarranjos domésticos, é sinal de que todos somos culpados. Quis este senador garantir que tão culpados são os que tomaram o leme nas mãos como os que foram transportados pelos capitães tresloucados. Era o que mais faltava. Se não houver por ali umas entrelinhas a meter um segundo sentido em jeito de provocação (e se eu tivesse tido o leme nas mãos nos últimos quinze anos tinha ficado com as orelhas a arder ou muito indignado com o ex-presidente), uma perplexidade esvoaça em jeito de (indignada) interrogação: eu, que nunca votei nos partidos Dupont & Dupont, os tais a que os politólogos chamam do “arco da governação”, como posso ser convidado a assumir o meu quinhão de responsabilidade pelo desnorte actual?
O general que soltou este raciocínio só podia estar a provocar. Quero acreditar que denunciava os que têm conseguido desmentir a profecia de que já batemos no fundo do poço. Podia lá o general que entretanto ganhou uma grisalha barba rala se dirigir àquela minoria que nunca (ou poucas vezes) escolheu os tais “partidos do arco do governo”. Tenho a impressão que o general que não sabe rir estava a dar um tremendo raspanete à imensa maioria que costuma votar naqueles partidos. Ou seja: um ex-presidente endereçou um convite público à sublevação das gentes contra os partidos que por sistema dominam o sistema. E não é que depois da perplexidade que isto me causou, até assino por baixo as palavras do general?
Pode ser do meu mau feitio, mas incomodam-me estes anacoretas que se elevam a um Olimpo de onde arrotam lições de moralidade escoradas num estatuto de superioridade. Parece que não aprendemos nada com os trambolhões da idiossincrasia. O respeito pelas veneráveis personagens colocadas no tal Olimpo de onde sopram as suas pérolas de sabedoria é afim ao respeito que a antiguidade exige. Não nos esqueçamos, a antiguidade é um posto.
Dizem muitos, aqueles que surgem com um ar de gravidade, que o momento complicado exige união. E agora que os de fora estão a passar a xafarica a pente fino, as divergências são uma heresia. Vai daí fez-se um ajuntamento de presidentes da república. Ai de quem se escamugir ao “consenso” que os senadores tanto prezam. Quem o fizer afronta o labéu de “antipatriota” para baixo. Pois se todos os presidentes da democracia pensam da mesma maneira, quem pode ousar a dissidência...

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