17.1.20

Cimento bruto


Chromatics, “You’re No Good”, in https://www.youtube.com/watch?v=PjUblmk4Cyo
Estas são as arcadas que suportam os ossos do pensamento. Vigas sólidas, com raízes fundas. Uma larga praça onde se debatem as ideias de opostos. Porque o pensamento não é um fragmento disperso que dança na ligeireza dos elementos. 
São as vigas sólidas, feitas de cimento em bruto que se transforma, depois da ação humana, em cimento bruto. Os alicerces precisam de ser uma fortaleza. Têm de ser imunes aos elementos exteriores que os possam ameaçar. Pétreos. Para terem arcaboiço para lidar com tergiversações. As vigas sólidas têm de ser uma demonstração dessa condição. A começar, têm de o ser para quem nelas encontra cais e lança, fundamente, a sua âncora.
Do cimento bruto não são vistas à mostra arestas fingidas. Isto não significa que o pensamento que têm suas baias nessas vigas não esbraceje quando é confrontado com dúvidas. Não significa que não haja momentos em que, colocado perante uma encruzilhada, o pensamento não saiba por onde seguir. É para isso que serve o cimento em bruto. Confere lastro. Ensina a travejar o pensamento, mesmo quando ele tem de sofrer mutações. A diferença entre um pensamento escorado em cimento bruto e outro que ande em demanda do seu paradeiro, é que o primeiro legitima as dúvidas, não se esconde das interrogações e não se inquieta quando não encontra respostas. Porque sabe que se pode apoiar em paredes vívidas que não tombam, por mais que possam parecer embaciados os eixos da memória e as fundações em que se protege o pensamento. 
Que não sobrem mal-entendidos sobre a expressão: trata-se de cimento bruto, mas o cimento não é bruto, não é a imagem selvagem de uma boçalidade sem remédio. É bruto porque foi feito à prova de intempéries, de contratempos, resiste melhor a todas as malformações que o adulterem, está preparado para as advertências e não segue imperativos de coerência. Não se pode pôr de lado a hipótese de influências exteriores, mesmo as que são intencionalmente rebatidas, poderem deturpar as fundações do pensamento, levando-o com elas a ser um pensamento não genuíno. O cimento bruto é a vacina contra as influências que se cogitam desde o exterior, quando elas se opõem à vontade do tutor do pensamento assim invadido.  
O pensamento é a linhagem da ação. Não pode ser menoscabado por falta de alicerces. O cimento bruto é a matéria-prima destes alicerces. 

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