11.2.21

Biombo (short stories #298)

Radiohead, “Pyramid Song”, in https://www.youtube.com/watch?v=3M_Gg1xAHE4

          Não é pela lei das regularidades. Não é pelas leis, de todo o modo. Precisa de um biombo onde possa disfarçar do disfarce que se cola à pele. Um biombo transparente, para que, escondido, toda a gente possa ver que se está a esconder. Este é um biombo invulgar. Deixa à mostra tudo o que se intui esconder. Um biombo que desconvida o olhar forasteiro. No âmago da sua transparência, fecha-se ao olhar sem pudor que espiolha o que não pertence aos outros. Talvez o mundo esteja precisado destes biombos. Porque se tudo estiver à mostra, ainda que sob o beneplácito de um biombo, perde interesse ao olhar forasteiro. O biombo passa a ser o lugar mais seguro, o cofre onde se alojam os segredos. Por ser transparente, descativa a intrusão. A matéria-prima que desembaraça os nevoeiros abastados do olhar turvo devolve-lhe clarividência. Supõe-se que a maré está baixa, o aroma da maresia parece que não nos leva ao engano. E, todavia, sem a prova tirada a meias com a perspicuidade, não os sentidos não são honrados. É provável que os sentidos sejam alvoroçados por vultos que embaciam a clareza do dia. Mas dentro do biombo é sempre respirável, como se o ar se purificasse por dentro da sua ossatura. Não se demovem as encomendas inventariadas para o sol-posto. Não é a noite que estorva a pureza do biombo. Não é à noite que o biombo capitula. Esse lugar pequeno, com a dimensão de galáxias inteiras, é uma cidadela que não precisa de ameias. O corpo precede os contratempos, é como se ele vertesse ácido sulfúrico sobre as contrariedades. Um sortilégio caucionado pelo biombo. Um dia, alguém pediu a descrição exata do biombo. Não lhe ocorreu se não proclamar que o biombo é o exílio onde ganha coragem para o mundo lá fora.

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