31.3.25

Arnês (short stories #486)

Ryuichi Sakamoto and David Sylvian, “Forbidden Colours”, in https://www.youtube.com/watch?v=x1YkHJJi-tc

          Um salto sem chão pede um respaldo que só o arnês pode dar. E quantos são os passos dados sem se saber do sobrevoo de um precipício? As costas largas ajudam a decifrar a seráfica curvatura da vida. Quem pende para a irrisória ilusão não contempla o risco; fica aquém do complexo choque frontal com as montanhas russas inesperadas. Ou pode ser apenas que os dados sejam atirados e os segundos limítrofes sejam uma suspensão do tempo à espera do resultado do acaso. Há vidas que são vividas com a faca visível sempre a premir a jugular, como se fosse possível adivinhar que os sortilégios jogam a favor. É um arnês simbólico que se levanta sobre o dia consecutivo, como se ele dependesse da indeterminação prévia à ocorrência do futuro. As montanhas não se levantam sozinhas; o resguardo dos contratempos não depende de hipóteses nem se fundeia na apatia. Podemos contratar a apólice que resgata do abandono dos deuses eufemísticos, o arnês diligentemente envergado sacrificando a viabilidade dos contratempos. Na posse do arnês, o precipício não convoca o medo. Desembaraça-se dele, investe numa heroicidade que de outro modo seria o equivalente ao sangue trémulo, envidraçado num labirinto inescrutável, à conta do arnês que é um salvo-conduto. Toda a angústia é desmatada com o simples gesto de forrar o arnês. O risco que possa lapidar o sono sereno traduz a conspiração de uns vultos perenes, ou apenas a tendência suicida para escolher, entre as alternativas que se perfilam, a que é a pior. E nem a desorientação avalizada pela ausência de astrolábio consome os rudimentos dessa serenidade: o arnês deve andar sempre a tiracolo, como se dispõe o cinto de segurança ao entrar num carro. E quem sabe se o arnês está no prazo de validade?

21.3.25

Hortas extra (uma cidade rural) (short stories #485)

Max Richter, “Tranquility Base” (Kelly Lee Owens Remix), in https://www.youtube.com/watch?v=BwEOMrUSsq8

          Falava-se de desanexação: uma espécie de PDM ao contrário: os prédios devolutos seriam demolidos e os terrenos declarados impróprios para construção. O município era liderado por um esquerdista caviar que decretou guerra ao grande capital e, por tabela, aos construtores civis que fazem crescer as cidades ao alto e alastrar a mancha de betão armado. As terras resgatadas ao imobiliário teriam de ser convertidas em hortas urbanas. As hortas seriam distribuídas pelos cidadãos que se candidatassem. Ao fim de dois mandatos do progressista edil, uma conferência de imprensa para apresentar o relatório de atividades: o edil mostra dois mapas, o antes e o depois da assim cunhada “política das hortas extra”. A mancha verde a alastrar de ano para ano. De acordo com o edil: mais 30% de hortas desde que tomou conta da cidade. Um jornalista – avençado de um partido da oposição, de acordo com o autarca – pergunta se a política das “hortas extra” não é demagógica. O edil pede um esclarecimento ao amanuense. Anui: 30% de hortas a mais empurraram sabe-se lá quantos habitantes potenciais para fora da cidade. É mais gente a ter de usar transporte quando vem trabalhar para a cidade. Mais danos no meio ambiente. Conclui: o senhor presidente da câmara é um demagogo que não conta a história toda, omite a seu favor os detalhes que não lhe são favoráveis. O edil enrubesce de raiva. Em voz alterada, acusa o jornalista de estar a soldo “da direita” e dos interesses da construção civil. O jornalista protesta o uso da palavra para se defender. O presidente da câmara: “isto não é a assembleia municipal, nem o senhor é um deputado para pedir a defesa da honra”. A imprensa devia ser amestrada, para ser devidamente grata – descaiu-se o presidente, em murmúrio para o vereador delfim sentado à sua direita.  

20.3.25

Se proibirem o pão duro, como fazemos açorda? (short stories #484)

Sugarcubes, “Regina”, in https://www.youtube.com/watch?v=Qfd5srbPUlo

           Cuidado com os bolores. Não são da estirpe de que é feita a penicilina. Os modernos déspotas, que só não se chamam déspotas porque vivem sob a tutela da democracia, estão de atalaia. Cuidam da nossa saúde. Proíbem a eito e regulamentam de outro modo, quanto proibir sai do raio de ação. Só vem para as bancas dos mercados o que passar no exigente crivo das credenciais devidas pelos cuidadores da saúde pública. Os fungos descontrolados podem ser perigosos para a saúde: ele há cogumelos mortalmente venenosos, queijos perigosamente apetitosos mas feitos de podridão, vinhos que adocicam à mercê de umas uvas quase podres e com bolores. E há o pão duro, que depressa ganha bolor. Proíba-se o pão duro para se pouparem idas desnecessárias às urgências dos hospitais de pessoas emaciadas e com desarranjos interiores. O pão duro passou o prazo de validade. Enrijeceu e pode ser danoso para a dentição dos loucos que se agarrarem a uma côdea de pau endurecido. Banir o pão duro e fora de prazo é, todavia, um golpe baixo contra a gastronomia tradicional: os melhores manuais gastronómicos recomendam o uso de pão muito seco para confecionar açordas. Os cuidadores da saúde pública andam distraídos. Deviam ter estendido a proibição às açordas. Porque uma açorda com pão fresco é um duplo desperdício: do fresco pão, que tem serventia melhor; e uma açorda à base de pão acabado de sair da padaria não cumpre os preceitos do preparado e perde qualidade. Ou então, as açordas são uma idiossincrasia e os habilitados tutores da nossa saúde desconhecem-nas. Temos direito a uma exceção. O pão duro está proibido pelos higienistas radicais. Mas podemos continuar a fazer açordas. Supõe-se, com o mesmo pão duro que foi declarado proibido. 

19.3.25

Tirar a sorte ao perímetro da sorte (short stories #483)

Destroyer, “Hydroplaning Off the Edge of the World”, in https://www.youtube.com/watch?v=AGWMUSs42M8

          Os otimistas cavalgam na sorte atendida. São irrepreensíveis no criterioso espelhar do sol radioso que esperam no porvir. São desmentidos por dissidentes que contestam as convenções e desafiam o lugar-comum do bom tempo que anda de braço dado com dias soalheiros. Dizem: está bom tempo quando chove. De acordo com esta dissidência, a sorte de uns é o azar de outros (para confirmar o anexim popular). Não é preciso esfacelar tanto a filosofia. Os provérbios arranjam uma métrica para serem imperiais – mas os provérbios são uma lei geral com o selo de aprovação popular. Os incorrigíveis otimistas aproveitam-se do dia soalheiro para carregar as pilhas de otimismo. Como se fossem os veraneantes que passam longas temporadas sob o sol abrasivo até ficarem com um bronzeado digno de estrelas de cinema. Contemplam o sol e ganham boa disposição. Atravessam o dia sob o efeito dos raios de sol para acreditarem que a existência diária não é uma tortura – como dão a entender quando os dias são repetitivamente plúmbeos, chuvosos e cheios de vento iracundo. Aproveitam o sol para extrair a matéria-prima da sorte. Amealham a sorte, porque não sabem se os dias de invernia se vão estabelecer por uma demorada temporada e, se for o caso, precisam de toda a sorte armazenada para a debitarem contra os amuos de infortúnio que vêm amparados no mau tempo. É uma concorrência feroz. Os seguidores do deus-sol competem por um quinhão de sol para desmatarem os baldios que os separam da sorte. O sol chega para todos – é dos poucos recursos que, contrariando os economistas habituais, não é escasso. A menos que esteja a chover e o sol tenha ficado escondido sob os auspícios de uma superfície frontal fria. Tiram à sorte o seu próprio quinhão da sorte. Depois, esperam.

18.3.25

Pedestal (short stories #482)

Death Cab for Cutie, “I Will Possess Your Heart” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=tFnYlkDtz00

          A alma noturna desembaraça-se de fronteiras, voa sobre o mapa desenhado pelas mãos contumazes. Voa ainda mais alto, como se o vento tivesse degraus e as vozes desmaiassem na lonjura da terra. Assim se mantém, imperatriz, de atalaia ao mundo. Não sabe distinguir os limites que se encenam através de diligentes procuradores que dão voz aos medos comuns. À noite, as sombras açambarcam as delimitações, é como se todas as terras fossem contíguas e das fronteiras se perdesse rasto. À conta das asas imaginadas leva a patente do desassombro, dissolve os vultos errantes que ao acaso adoecem as vítimas prediletas. Quando atinge a altitude de cruzeiro, descansa, planando sobre os lugares imersos no sono. Este é o seu pedestal. Desconta as indulgências sufragadas no oráculo dos pesares; rejeita a comiseração orquestrada como sinal de redenção; esconjura as comendas prometidas, as oportunistas genuflexões que fingem um respeito sem curadoria; abstém-se de tomar partido, que todas as causas são alheias e não foi entronizado juiz. Mantém-se no pedestal, a soberania máxima de onde elide os acasos que espelham a angústia promitente. Desde o pedestal não governa, não se envaidece, não distribui perdões sob encomenda, não ajuramenta confissões nem costura arrependimentos. Limita-se a contemplar a paisagem desde o promontório a que se elevou. Intui que a distância do chão é medicinal. Tem consciência que não se pode eternizar como embaixador do céu. Esse tem outra conotação que não é da sua lavra. O pedestal é um embrião de finitude, a que se projeta nos sonhos que não cessam de existir, como se os sonhos se emancipassem do sono e fossem cúmplices do dia em que mandam os sentidos. Quando desce do pedestal, é como se nunca tivesse de lá saído. É o seu segredo bem guardado: o pedestal é onde soubermos ser a plenitude de nós. 

17.3.25

Etc. (short stories #481)

Royal Blood, “Out of the Black” (live From Brighton on the Beach), in https://www.youtube.com/watch?v=t3JWiZlQpQo

          E depois as consequências perderam-se no emaranhado de pensamentos avulsos antes que anoitecesse e o sono se moldasse aos pesadelos contíguos que arrancavam do luar a luz estrénua que precisavam para assaltar as consciências mudas. E depois as mãos sentiam-se suadas, percutidas pela fogueira que salvava a casa do frio do Inverno antes que a geada tomasse conta dos poros das paredes e do chão e a hibernação fosse apenas o fingimento da morte. E depois os animais despenhavam-se num momento lúdico como se nada mais importasse e os contratempos do mundo fossem uma competência exclusiva dos Homens que com as suas luvas de maldade preenchiam os espaços deixados em branco. E depois havia um depois ainda alinhado sob as copas das árvores, o estuário que pressentia o mar largo, as estações de comboio onde as pessoas são intrusas e a mortalha que resguarda as pessoas contra a sindicância dos outros. E depois faltava o medo entretanto emudecido pelo assalto desbocado às palavras como se em falta estivessem por suspeita de embargo nos dias que estavam para vir. E depois nem as cordas todas do mundo davam para amordaçar as almas destemidas que eram viradas do avesso enquanto as estrofes eram terçadas contra o enxovalho limítrofe. E depois, ainda à espera de outro ainda, media-se a temperatura da confiança depois de as pessoas terem sido atiradas umas contra as outras num esboço de conspiração que invadira o lugar. E depois o céu noturno acendeu-se com o rabear de um cometa que as pessoas não puderam contemplar por culpa do sono convencionado para a noite. E depois, antes que voltasse a ser depois, as páginas recuavam por força do vento que as adestrava para a melancolia irrisória, própria dos que se refugiam num tempo amuralhado mas impossível. E depois, ficaram apenas à espera do etc. 

14.3.25

Reembolso

Ólafur Arnalds & Loreen, “SAGES”, in https://www.youtube.com/watch?v=4OTd2qBH6jQ

O livreiro já não tinha espaço para passar nos corredores onde se amontoavam os livros. Comprava-os compulsivamente, mesmo sabendo que nem a hipótese de longevidade o salvava de não conseguir ler todos os livros. Dizem que há uma doença para esta compulsão, uma palavra japonesa. Não queria saber: se fosse o caso, autodeclarava-se doente um primeiro grau, viciado em livros, incorrigivelmente. Mesmo que soubesse que não conseguiria ler todos os livros anarquicamente espalhados pelas estantes, pela sala, pelos corredores, pelos quartos – até na cozinha havia livros.

Não fosse ele livreiro. Amador, mas livreiro. Não era alfarrabista, porque não estava no negócio e se algum houvesse, o dele era unilateral: dedicara-se a comprar livros, de todos os feitios e géneros, no idioma nacional e noutros idiomas, até os que eram ininteligíveis, antigos e atuais, técnicos e de literatura, poesia ou prosa, muitos. Não podia estar no negócio porque se sentiria estropiado se vendesse exemplares da sua coleção. Ainda pensou afixar um letreiro à porta de casa com o dizer “biblioteca”, mas ainda se importa com o que os outros dizem e os outros são vizinhos a que não é indiferente. 

Todos os dias lê pelo menos cento e cinquenta páginas. Pode ser do mesmo livro ou ser um caminheiro, livro para cá, livro para lá. Lê a qualquer hora do dia, em qualquer lugar. A mochila é sempre o logradouro temporário que recebe livros que escolheu para acompanhar o dia. Tanto gosta de ler um livro quase sem respirar, da primeira à última página, como trazer um punhado de livros por companhia durante uns dias, arrastando a leitura pelos dias fora. As mesinhas de cabeceira foram colonizadas por livros. Eles são o seu ansiolítico. Quando acorda, não se levanta sem ler um poema de um livro criteriosamente selecionado de véspera.

Um amigo assustou-se com a desarrumação da casa. Protestou contra o caos (“isto faz-te mal, há sítios da casa em que mal se consegue passar”). Advertiu-o da compulsão. Com algum desdém à mistura, disparou: “ainda por cima, não tens tempo de vida para ler tudo o que ainda não leste”. 

Ficou indiferente a tantos reparos. Sabia do seu amor aos livros, que crescera na medida diametralmente oposta do desamor às pessoas. Ou melhor: os livros ainda eram o último reduto onde conseguia encontrar pessoas recomendáveis. Mesmo que, no auge de um dilema moral, esbarrasse em pessoas execráveis e repletas de maldade: é com essas que aprendemos a não ser como elas. 

Sentia que a cada página ultrapassada a sua vida era reembolsada. Não havia melhor recompensa da e para a vida.

13.3.25

Nadar às cegas

Death Cab for Cutie, “Black Sun” (live on David Letterman), in https://www.youtube.com/watch?v=o9o8jYRAmaI

O que seria de nós se não houvesse placas nas estradas a indicar a direção das localidades, a toponímia nas ruas das cidades, a ciência da cartografia, se os satélites não adejassem sobre nós para que não nos percamos nas demandas? O que seria de nós se andássemos constantemente de olhos vendados?

Somos tiranizados pelos sentidos. Feitos de uma entrega voluntária aos sentidos que são a bússola que ajuda a dar sentido. Às vezes, diz-se: temos de encontrar um sentido para a vida. E não vamos atrás de placas indicativas, da sinalética que povoe uma orientação, nem possuímos um sofisticado software para desenredar as incógnitas que se esmagam contra o peito das dúvidas. Não temos mapas interiores que ajudam a desatar os nós das circunstâncias. E nunca perdemos nada, a não ser a oportunidade para voltar a cometer erros num tempo mais tardio.

A diligência dos mapas, o grosseiro imperativo dos roteiros para tudo e mais alguma coisa, a dependência de meticulosos planos – tudo o que aparentemente confere um sentido de organização das vidas joga-se num acaso quando apenas se confia no autojulgamento, na lucidez, ou na falta dela, que se combinam para às vezes conspirar contra nós, outras vezes para ajudar a desatar os nós existenciais. Nadamos às cegas, como os antepassados navegaram por estima, perpendiculares à costa para não perderem os azimutes. Nadamos às cegas, num labirinto desprovido de luz, por tentativa e erro, vagarosamente tateando as paredes, temerariamente avançando um pé de cada vez para evitar os passos em falso. Como se estivéssemos intencionalmente dotados de uma cegueira salvífica.

Desejamos que a cortina desça sobre o palco para se transfigurar num labirinto dedicado às sombras tutelares. Impõe-se a candidatura à rebeldia, a recusa das luzes que, de tão flamantes, corrompem o olhar com as cicatrizes que um mundo malparado apurou em forma de condenação. Até ser preferível mergulhar nas trevas que são o resgate da metamorfose forçada pelo mundo malparado. Esconjuramos esse mundo que se torna malparido ao nadar no escuro. 

Estamos a precisar de paradoxos para sentirmos que é possível um exílio por dentro do lugar onde estamos.

12.3.25

Invisibilidade (short stories #480)

The Hard Quartet, “Action for Military Boys” (live at WFUV), in https://www.youtube.com/watch?v=vsyt7u1-4us

          Os rostos públicos são um saque de identidade, dizia, enquanto rodava o dedo indicador na aresta do copo. A identidade deixa de ser privativa, uma expropriação que, todavia, muitos não se importam de acautelar quando se dão à visibilidade pública. Dizia: detestava ter de esconder o rosto, vertê-lo na direção do chão para não me sentir acossado pelas pessoas que se cruzassem comigo se fosse uma personagem entregue ao conhecimento público; detestava ser interpelado na rua, fosse o motivo que fosse, dos bons à conta de elogios, ou dos maus à conta da acerba que me fosse contemplada. À medida que abanava o copo, observando o refluir lento da bebida, como se as ideias fossem centrifugadas no vascolejar da bebida contra o gelo, consagrava a invisibilidade. Quando saísse do bar e fosse para casa (ou para o próximo bar), não seria a noite a caucionar a invisibilidade. Não era um vulto errante, embrulhado num disfarce de roupas negras encimadas por um chapéu com largas abas que ocultassem o rosto. Todo ele era visibilidade, no compasso acertado das roupas claras que as noites tépidas de Verão pediam, sempre sem o adereço do chapéu. Uma voz interna subiu ao palco e sussurrou, contumaz: estás convencido de que és invisível porque já bebeste umas quantas bebidas, não estás em ti. A voz desmancha-prazeres continuou a saga: mergulhas no álcool para fazer de conta que és invisível. Acreditou que estava na hora de entrar no bar que se seguisse. Até lá, extraiu o rosto da sepultura voluntária em que o afundava sempre que saía à rua. Para confirmar se a voz gutural que invadira o pensamento tinha razão. Mas não estava lúcido. Não podia acertar o tira-teimas. Se fosse confirmado o diagnóstico da voz interior, ao menos tinha o que muitos ambicionavam e não alcançavam. Não era grande compensação. Mas era um frágil sinal de lucidez.

11.3.25

Peritos em nada

Idles, “Well Done” (live at SXSW), in https://www.youtube.com/watch?v=z9W3-PKDzWw

Fecunda esta força que se evade da tentação de saber o muito que se pode saber e depois esmagar tamanha sabedoria nos súbditos, os que andariam à toa não fosse a caritativa diligência dos embaixadores da sapiência. 

E eles, todavia, dissidiam. Não sabiam do paradeiro das respostas. Fugiam das perguntas, não por as temerem, mas porque quem as fazia estava à espera de um imperativo de resposta. Não queriam essa responsabilidade. Primeiro, não eram missionários por conta dos outros. E depois refugiavam-se na (pelo menos) aparente subjetividade do conhecimento. Não tinham nascido para serem educadores. Que responsabilidade voluminosa seria essa, a de aprestar respostas prontas a cada decibel de perguntas a zuir por dentro da cabeça. 

São, para seu grande gáudio e orgulho, peritos em nada. Nadam nesse conhecimento insubstancial, no borbulhante lago onde as incógnitas soçobram com o entardecer e não voltam a emergir quando a luz madruga e se ergue num fugaz sinal que se agiganta com o andamento dos minutos. Quando é preciso, defendem-se com agressividade quando as demandas se atiram a eles, numa consanguinidade inventada que não reconhecem. A agressividade é uma autodefesa, legitimada. Dos assuntos mais singelos aos que exigem perícia só ao alcance de talentosos, as perguntas esbarram na indiferença. Numa indiferença metódica que se ergue como cortina de fumo para dissolver as perguntas numa nuvem crepuscular.

Os perguntantes vão aprendendo. Dali não levam respostas, não adianta a dirigirem perguntas. Os interrogatórios serão sempre alheios, ficam desertos. Vão procurar conhecimento aos artistas que o dirimem. Ao contrário destes, os peritos de nada juram que só sabem nada. Ainda uns quantos arriscam perguntar sobre o nada e eles retorquem que sobre “o nada” sabem nada.

Poderiam, no máximo das possibilidades, perguntar-lhes sobre nada. Disso teriam nada a dizer. Já o empate das circunstâncias desfeitearia as incompatibilidades que tivessem sido agigantadas.

10.3.25

Quem quer ser primeiro-ministro por sete minutos?

Trentemøller, “Moan” (Trentemøller Remix ), in https://www.youtube.com/watch?v=5vkj-t1ytzo

(Inspirado numa série de debates organizados pela Universidade de Coimbra)

Uma espécie de Speakers’ Corner para candidatos a candidatos a primeiro-ministro: subam a palco os proponentes, tomem conta do microfone, têm direito a sete minutos bem contados sem direito a interrupção. Sete minutos para propor reformas que têm o condão de sepultar um atraso congénito – ou sete minutos para perpetuar a ilusão de um adiamento imorredoiro. Só não têm tempo para o diagnóstico, sem o qual as propostas de mudança (e, aos que assim forem ainda crentes, de continuidade) parecem amputadas de sentido. Mas sete minutos é melhor do que o silêncio voluntário ou involuntário. Venham a palco os candidatos para avivarem o palco da cidadania.

O que se quer são ideias. Entre as ousadas e as conservadoras (no último caso, só para medir a temperatura do conservadorismo – dando o desconto que os conservadores serão propensos a não sair de casa, o que prejudica a representatividade da amostra); entre as lunáticas e as que repetem o receituário conhecido (de aquém e além-fronteiras); entre as risíveis e as complexadas; entre as que assumem uma grandeza entretanto esquecida e as que dependem do auto amesquinhamento; entre as viradas para a pluralidade do mundo e as que se ensimesmam num paroquialismo diletante; entre as que desconstroem o património havido (de políticas) e as que pisam o palco da inovação (nem que seja lunática); entre as que são proclamadas com um discurso elegante e as que se enredam na confusão discursiva de quem não nasceu para orar em público; entre as herdadas do futuro e as mergulhadas no passado. 

E depois dos sete minutos de fama, que saibam ouvir nos outros blocos de sete minutos o que os alternativos candidatos recomendam. Saber ouvir os outros é uma virtude em perda. Saber aprender a partir do que se ouve dito pelos outros é a humildade que devia ser ensinada desde os bancos da escola. Saber reconhecer o mérito das ideias dos outros é da mais elementar justiça. 

Ao cabo da maratona de sucessivos blocos de sete minutos, de tantos aspirantes a primeiro-ministro um punhado se há-de destacar. Levem as suas ideias à assembleia onde parlamentam os oficiais representantes em nosso nome, sem esquecer de convocar para a sessão o governo inteiro. Sua será a vez de aplicar os pilares do conhecimento que são requisito de admissão dos proponentes a primeiro-ministro que peroram dentro do limitado quadro de sete minutos. Que os oficiais representantes na casa da democracia saibam multiplicar por muitos outros sete.

7.3.25

Pezinhos de lã (short stories #479)

The Hard Quartet, “Lies”, in https://www.youtube.com/watch?v=pahCJlZuMgc

          As mãos batem ao de leve, mas batem, como só as palavras conseguem bater. Quase sem dar conta, o pé-ante-pé que se insinua, dissimulado: quando é para dar conta, a invasão está consumada. Sem pré-aviso – mas quem acredita que as invasões devem obedecer a um aviso de receção, se nestes despreparos das almas não há código de conduta nem cavalheiros? E lá aterram eles, os pezinhos de lã, que entram sem bater à porta, a salto, como os salteadores. Não se sabe ao que vêm. Talvez notifiquem depois de materializada a agressão; tem de haver uma lógica para a agressão, por mais ilógica que seja. Talvez não apreciem a cor dos olhos. Ou a estatura. Ou as ideias. Ou talvez tenham ido aos arquivos para resgatar textos malditos que merecem punição ditada pelo desejo da maioria. Estes são crimes que não prescrevem. Nem que os textos subjacentes tenham sido expurgados, pois os diligentes censores têm meios de os extrair ao esquecimento. Nem que sejam textos entretanto renegados, que um bom censor (há-os, censores bons?) não transige com o arrependimento que pode ser apenas a colheita de um fingimento, oportunista. Os pezinhos de lã são um misterioso assomo de silêncio. Nem que o chão seja de madeira e a podridão semeie o ranger irremediável, os pezinhos de lã são como os prestidigitadores que conseguem proezas admiráveis, aquelas que deixam a audiência de queixo no chão. Os pezinhos de lã alcançam o mesmo sortilégio dos que passam pelos pingos da chuva sem se molharem. Quando aterram, findam o silêncio farsante e despejam toda a ira com uma voz tonitruante, que amedronta até vultos experimentados. As vítimas só sabem que são vítimas quando já o estão a ser. Em abono da civilidade, deviam inventar uma lei para proibir a venda de pezinhos de lã. 

6.3.25

Eu sei que não tenho uma estrela Michelin

The Comet Is Coming, “Slammin”, in https://www.youtube.com/watch?v=QbNgv0RCF0g

Deviam acabar com a ditadura da excelência, o produto acabado de um logro que contraria a moda democrática de que todos usufruímos a igualdade pela mesma medida. Quando a realidade cai na vertical e sabemos que não somos aceites entre o escol, acusamos os outros, os que andaram a prometer a usura sobre a igualdade metódica, de terem fracassado na empreitada. 

Como não há uma caça a bodes expiatórios, o que menos interessa é alinhavar as culpas e distribuí-las de acordo com a quota-parte dos ideólogos da modernidade. A culpa será deles; precede-a a nossa responsabilidade: não somos desprovidos de inteligência e de capacidade hermenêutica, habilitamos as teorias que se aformoseiam para serem candeias que nos devolvem a luz guia, mas não podemos deixar de as comparar com o espelho que retemos do mundo. Se forem apenas especulativas, ou um retrato distorcido, rejeitamo-las.

Da procura incessante pela excelência irradia uma angústia duradoura, a concessão aos outros porque só seremos embaixadores da excelência se formos reconhecidos por eles. Ficamos à sua mercê, numa inversão da misantropia desaconselhada pelos curadores da vida em sociedade. Ah!, se o que interessasse fosse apenas o juízo que fazemos de nós mesmos, se não nos hipotecássemos aos juízos dos outros, talvez fôssemos um pouco mais o eu entretanto abdicado. 

E, contudo, não cessamos de cair num logro, alegremente iludidos por uma contradição que nasce em nós e é finalizada pela estocada dos outros. Temos de abdicar do eu para obtermos o reconhecimento que precede o elevador do mérito. Ao fazê-lo, a humildade de quem se ajoelha diante do escrutínio dos outros é uma intencionalmente forjada: os que se projetam no púlpito onde a excelência é reconhecida, depressa se desprendem da humildade e abraçam-se à arrogância autorizada pela excelência autorizada pelo escol. 

Se não estivéssemos dependentes deste ambíguo mealheiro feito de humildade e arrogância intelectual, o mundo seria menos irrespirável. Não seríamos escravos do dizer dos outros e não teríamos de esconder uma humildade que estamos prontos a desmatar assim que a excelência nos seja reconhecida. Se a muitos fosse concedida franquia para habitar na excelência, a excelência deixaria de o ser – e isso teria o efeito paradoxal de impedir a um numeroso grupo de tocar na coroa da excelência.

Se não desossássemos a humildade com o pretensiosismo de querer estar acima dos demais, seria mais fácil habitar o espaço vital. Não teríamos a mania das grandezas e ficaríamos interiormente gratos ao saber que tínhamos colocado o melhor de nós em cada empreitada. A tirania dos outros impede-o.

5.3.25

Estilhaços e epopeias

The Sugarcubes, “Hit”, in https://www.youtube.com/watch?v=Z5fAWpv_axs

A devastação consome a serenidade. Abatem-se sombras, malignas. Um odor pestilento atravessa as veias, a sórdida contaminação que desabastece o mundo de claridade. Os muros voltam a ser património, envergonhando os semelhantes que são reeducados como se apenas fossem diferenças. As manhãs crescem como se já fossem o anúncio da noite – e a noite transfigurou-se num palco que hospeda pesadelos, medonhos.

O mundo não se recomenda. Está entulhado por ideias que prescreveram e, todavia, entram pela porta dos fundos, reabilitadas, até se estabelecerem. As palavras são adulteradas para traduzirem hostilidade, agravo, falsificação, desconfiança, represália, desverdade. O sangue ferve e, ao mesmo tempo, parece hibernar. Diante deste espetáculo atroz somos presas fáceis se o silêncio for o mote. Sendo cúmplices pela apatia, deixando sem resposta as injúrias que estilhaçam um código de valores, uma pertença civilizacional tomada de assalto pelo medo que temos do medo infundido pelos mastins arregimentados. A falta de memória histórica é aterradora. O défice de interesse ajuda a branquear a falta de memória histórica.

A capitulação não pode ser a palavra de ordem. Nem a confortável posição em que ficamos quando endossamos a responsabilidade aos outros, à medida que os outros a vão endossando sempre para o vizinho do lado, e assim sucessivamente. O mundo está a precisar de heróis – de heróis modernos, que usem a palavra para demolir a agressividade que derrama sobre nós o abismo da hostilidade, numa beligerância geral que ameaça tomar conta do tempo. De heróis que não sejam feitos de bravura destemida e de demenciais atos de desprendimento do eu. Os heróis que são precisos querem-se vivos. Pois são os vivos que conseguem recolher os estilhaços e transformá-los numa cidade remoçada.

Esta é a epopeia que prometemos. Contra os filisteus que só se mantêm enquanto o mundo estiver do avesso, contra a desconfiança ilegítima que perfura a pleura da humanidade, contra os despojos intencionalmente vertidos sobre os nossos olhares entretanto desatentos, uma epopeia. Para não sermos cúmplices do avançado estado de decomposição dos códigos de conduta prescrito por aqueles que a História sentenciou. 

Ainda vamos a tempo dessa epopeia.

4.3.25

Vigília

Sigur Rós, “Fljotavik”, in https://www.youtube.com/watch?v=sW3LIMRh3C8

Corria depois do tempo para saber se a gramática herdada se prestava a um inventário demorado. A servidão insinua-se em gestos discretos, quase impercetíveis, empilhados num paradeiro que toma conta de muitos lugares. Entre os haveres despojados, a desesperança: parecia domado pela angústia que se fazia ao tempo como se fosse uma maré a crescer, imparável. Era tempo de travar a angústia e a desesperança.

Aos que protestam contra a colonização pela tremenda atualidade, retorquia que se somos presas do que nos amedronta temos um dever irrecusável de atalaia. Somos as vítimas prediletas dos predadores que se atiram à nossa vontade. Não podemos fazer concessões à desatenção para a vontade não ser colonizada por outros que dela se querem apoderar.

A vigília deve ser contínua. Nesse tempo contínuo, ao sono de uns corresponde a vigilância de outros. Ninguém quer ser vítima do acaso, ou condenado à irreparável decadência de quem se entregou à desatenção. Mal o arrependimento entre em cena, é sintoma dos acasos que poderiam não o ter sido se estivéssemos de vigilância. Temos de aprender com a experiência. Da contingência medra uma desconfiança metódica. Não é a desconfiança gratuita, como quem se sente acossado sem conseguir nomear os vultos opressores; é a desconfiança que se legitima nos socalcos da incerteza que tornam o devir tão fortuito. 

Acautelemos o modo de viver em que somos figurantes. Não interessa a posição em que subimos a palco. É a humildade profícua que converge para o papel de figurante. O que interessa é sermos o eu que de genuíno for possível – somos permeáveis ao contacto com os outros. Não nos deitemos à subjugação voluntária pela concessão à apatia. Sem um módico de vontade, ficamos à mercê das vontades outras que se congeminam. 

A vigília não é a oposição aos desacertos que parecem conspirar a nosso desfavor. É o salvo-conduto para guardarmos um lugar próprio do palco em que contracenamos. Conservemos a chave que franqueia a vigília, para não sermos meros vultos condenados a destroços sem serventia. Para não sermos os sujeitos passivos de uma servidão constante.

3.3.25

Cavalo sem freio

Paul Weller, “I Woke Up”, in https://www.youtube.com/watch?v=yvKjGf5g9Z8

Nem a noite aquietava o sangue ebuliente. Esperneava entre as veredas que abria com o focinho, como se fugisse de tudo, sem medo dos arbustos altos que cobriam o caminho. Perdera conta dos montes subidos e depois descidos, dos riachos atravessados, dos lugares por que passou sempre a evitar povoados humanos. Sentia o cansaço nas patas mas não podia parar. Às vezes abrandava, o corpo mandava respirar mais devagar, era a pausa necessária para carregar forças. 

Os cursos de água que apareciam pelo caminho vinham a calhar. Dessedentava-se. Sentia a água que descia pela garganta como o alívio da febre interior que o levou à fuga. A água fresca acalmava o coração. Ao chover, lembrava-se porque fugiu. As gotas da chuva que se recolhiam no dorso avivavam as feridas ainda abertas, os lanhos perpendiculares atravessavam as costas de um lado ao outro. Fugira há dois dias mas já tinha como distante a memória daquele circo onde era maltratado. Tão cedo não queria ver rostos humanos. Ganhou uma desconfiança metódica das pessoas. Mesmo daquela gente sem relação com o circo, cúmplices por omissão por continuarem a frequentar o circo.

Não sabia nada de geografia, nem sabia para onde ia. Continuava a trotear sem destino, errando no avesso da memória. Ainda se lembrava do chicote em riste quando o tratador o queria domar. Nunca percebeu a maldade: sempre foi dócil, nunca se insurrecionou contra as pessoas do circo. A violência do tratador tornou-se insuportável, insultuosa. Como se podia dizer que aquele homem era o seu tratador se o que ele fazia era destratá-lo?

Só não se queixava da comida: havia ordens no circo para os animais serem bem alimentados, não queriam que o circo passasse vergonha à custa de animais macilentos e adoentados. As pessoas estão cada vez mais atentas aos maus-tratos a animais, até há leis que castigam aqueles que castigam os animais. Tirando a alimentação (e o cuidado com o pelo, porque tinha de aparecer em público com o pelo sedoso), o resto eram maus-tratos. Dormia sob a égide das tempestades porque os trabalhadores do circo não queriam acordar a meio da noite para recolher as bestas. Os deveres periódicos de consulta com um veterinário eram esquecidos, as contas do circo estavam apertadas e a ameaça de falência pairava.

Quando teve oportunidade rasgou o arreio que o prendia a uma árvore com toda a força dos dentes. Não olhou para trás e correu com toda a força que as pernas tinham. Podia não saber de geografia, mas sentia que uma bússola interior o levava para os antípodas do lugar onde estava estacionado o circo. Não sabia o que seriam os amanhãs consecutivos. Mas não se importava com isso.

Agora, era um cavalo selvagem. Furtivo, mas livre. Longe de humanos, que o trauma dos humanos era uma ferida aberta enquanto a memória não se esvaísse. As montanhas em redor não tinham povoados por perto. Era capaz de encontrar refúgio para dormir e o lugar era pródigo em bagas, frutos silvestres e feno espontâneo. Não sabia quando ia morrer. Mas sabia que podia morrer sem sentir o sobressalto contínuo de uma mão a agredi-lo.