Ryuichi Sakamoto and David Sylvian, “Forbidden Colours”, in https://www.youtube.com/watch?v=x1YkHJJi-tc
Um salto sem chão pede um respaldo que só o arnês pode dar. E quantos são os passos dados sem se saber do sobrevoo de um precipício? As costas largas ajudam a decifrar a seráfica curvatura da vida. Quem pende para a irrisória ilusão não contempla o risco; fica aquém do complexo choque frontal com as montanhas russas inesperadas. Ou pode ser apenas que os dados sejam atirados e os segundos limítrofes sejam uma suspensão do tempo à espera do resultado do acaso. Há vidas que são vividas com a faca visível sempre a premir a jugular, como se fosse possível adivinhar que os sortilégios jogam a favor. É um arnês simbólico que se levanta sobre o dia consecutivo, como se ele dependesse da indeterminação prévia à ocorrência do futuro. As montanhas não se levantam sozinhas; o resguardo dos contratempos não depende de hipóteses nem se fundeia na apatia. Podemos contratar a apólice que resgata do abandono dos deuses eufemísticos, o arnês diligentemente envergado sacrificando a viabilidade dos contratempos. Na posse do arnês, o precipício não convoca o medo. Desembaraça-se dele, investe numa heroicidade que de outro modo seria o equivalente ao sangue trémulo, envidraçado num labirinto inescrutável, à conta do arnês que é um salvo-conduto. Toda a angústia é desmatada com o simples gesto de forrar o arnês. O risco que possa lapidar o sono sereno traduz a conspiração de uns vultos perenes, ou apenas a tendência suicida para escolher, entre as alternativas que se perfilam, a que é a pior. E nem a desorientação avalizada pela ausência de astrolábio consome os rudimentos dessa serenidade: o arnês deve andar sempre a tiracolo, como se dispõe o cinto de segurança ao entrar num carro. E quem sabe se o arnês está no prazo de validade?
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