3.4.26

CXXXII

Einstürzende Neubauten, “The Garden”, in https://www.youtube.com/watch?v=MMqC7Wx2-nE


You will find me waiting for spring and summer

you will find me waiting for the fall

you will find me waiting for the apples to ripen

you will find me waiting for them to fall.


A Praça das Pessoas foi inaugurada. Discretamente: as pessoas são a peça menos importante da engrenagem que é o mundo, a crer pelos constantes atentados à vida humana, ao precipício aparentemente irremediável em que meteram a vida humana, à ligeireza com que vidas decepadas são levadas à contabilidade material de perdas e ganhos, à banalização da guerra como instrumento de resolução de diferendos.

Mesmo assim, alguém imaginou que um lugar pudesse, em seu batismo, receber o nome de Praça das Pessoas. Não foi um processo pacífico. A proposta partiu de um pequeno partido representado na Assembleia Municipal. No início, os maiores partidos desdenharam a proposta. Um quis ver conotações ausentes. O outro, invocando outras prioridades (materiais, como era de esperar), propôs adiar a discussão da ideia. O partido que teve a ideia não desistiu. Até que um período refratário da humanidade, povoado pelo recrudescimento de guerras locais e pela multiplicação de mortos, aqueceu o momento para a discussão da ideia. 

As oposições à criação da Praça das Pessoas desapareceram num ápice. São sempre de louvar as mudanças de ideias quando elas concorrem para um bom propósito. Que interessa saber se foram motivadas pelo oportunismo, se aqueles que dantes se opunham à ideia mudaram porque o momento adulterou tanto as raízes da humanidade que abriu caminho para o que outrora consideravam idealismos pueris? 

Ainda houve quem contestasse a ideia. Acusavam os promotores de serem utópicos e ingénuos. Era suficiente terem denunciado a utopia da ideia, pois os utópicos baseiam-se numa ingénua leitura do entorno. Contestando a ideia com o habitual tom iracundo que espuma pelos cantos da boca em detrimento da lucidez, este grupo vocal nem deu conta de como estava a ser situacionista (todo o contrário do que o mobiliza): defendia a perpetuação da hipocrisia que notabiliza a ação dos países, tanto os que se metem diretamente em guerras quanto aqueles que toleram a sua existência. Perdidos nessa espuma iracunda, nem chegaram a perceber que a expressão “utopia ingénua” é redundante.

Aprovada a ideia, depressa concorreram as vontades para apressar o reordenamento urbano da praça que estava em pulgas para ter um novo nome. No dia da inauguração, todos os que subiram ao palco falaram com o discreto entusiasmo dos utópicos. Lembraram que a pessoa deve estar no centro do mundo, sem agredir o mundo que a acolhe. Evocaram o humanismo, para não ficar esquecido como simples curiosidade antropológica. Um dos oradores orgulhou-se da ingenuidade da iniciativa: “estamos em dívida com a ingenuidade. Se fôssemos todos mais ingénuos, os outros acabariam por ser derrotados pelas nossas utopias”. E todos aplaudiram discretamente quando foi descerrada a bandeira que cobria a placa com o nome da Praça das Pessoas.

Sem comentários: