6.4.26

CXXXIII

Cocteau Twins, “Cherry-coloured Funk” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=GUQ8qexN3bU


You steam a lens stable glass and eyes

not got pissed off through my bird lips as good news

you’ll hang the hearts black and dull as the night

we hanged your pass and start being as you in ecstasy.


Sente-se o pescoço aldrabado pelo sabor a alumínio que vem da tarde. O entardecer faz pressentir a forca sobre o dia. É da ordem das coisas, a sua finitude. Se com as pessoas este fosse o comportamento, o dia do funeral não seria de receber todas as pedras pontiagudas encontradas nas imediações.

Passa pelo cais e espreita os navios que lançaram âncora. As cordas puídas agravam a fragilidade dos navios. Se vier uma tempestade e o vento enfurecer o mar, nem o cais salvará os navios. Sabiamente, os marinheiros foram a terra. Enquanto estão desembarcados, não querem saber do navio. Não os acusem de falta de profissionalismo. Estão no exercício da folga “nos termos da lei”. Não é preciso ser marxista. 

Ao longe, quando o horizonte se mistura com as primeiras montanhas, uma língua de fumo sobe na vertical. Ainda está a Primavera no seu alvorecer, e o fogo arranja maneira de se amotinar. Ou alguém foi negligente e uma simples queimada para rejeitar os desperdícios dos campos amanhados agigantou-se na forma de incêndio. O fogo nunca pediu licença para colonizar lugares diferentes dos da sua nascença. Não venham os liberais exarar o sagrado direito de propriedade, que o fogo, se estiver rebelde, não lhes dá ouvidos. 

Na televisão, dois literatos despiram-se da sua erudita condição para serem embaixadores de dois escritores novecentistas. Aliciados pelo (vil, segundo os marxistas) capital, prestaram-se à vulgarização televisiva de quem defende o escritor preferido como se nada mais importasse – só faltou que a linguagem descaísse para o chinelo. O defensor de Camilo gastou o tempo a atacar Aquilino. O aquiliniano acusou a injúria e devolveu a graça, com gratificação adicional. No final, estavam quase todos dececionados (menos os literatos que quase chegaram a vias de facto e disso estavam orgulhosos). O programa, que foi pensado para ser de entretenimento, teve uma audiência irrisória. As pessoas do século XXI perderam o rasto dos grandes escritores novecentistas – ou não estão dispostas a aturar literatos eruditos.

O entardecer enganchou a noite e a corda aperta-se cada vez mais à volta do frágil pescoço do dia. Ninguém presta atenção a esta execução sumária e datada. Uns porque estão a dormir enquanto o dia vai a sepultar. Outros porque depositam as esperanças no dia nascituro, do qual pressentem o sabor do leite passado a mel quimérico.

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