28.8.26

Pérgula (short stories #520)

Angine de Poitrine, “Yor Zarad” (live at the Montreal International Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=bir6zLAb0A0  

O destino das flores é adoçar o dia, não as pessoas que as recebem ou as pessoas que são involuntárias testemunhas da sua exposição e beneficiam da dilatada exposição à estética. As flores são arrancadas em nome da nobre (assim se diz) presunção da estética, mas não deixa de ser um massacre. As que ficam nas estufas enviúvam temporariamente; está-lhes reservado o mesmo destino, deixando outras viúvas flores enquanto ateiam o negócio que se apresenta como curador dos bons propósitos da estética. Não se entende como podem irradiar tanta beleza pressentindo que estão vocacionadas para o sacrifício em nome da estética e do egoísmo de uns quantos. Um dia, alguém disse que não gostava de receber flores. Na altura, imberbe ainda e incapaz de elucubrações tortuosas, interrompi o cavalheirismo por se ter mobilizado a simpatia pelas flores que são sempre prematuramente arrancadas à vida sob pretexto de irradiarem o dia de quem as recebe e de quem é involuntário tradutor da beleza falada pelas flores ornamentais. (Essa pessoa confessou que preferia receber vasos com plantas, e percebi os malefícios causados às flores que foram cultivadas para serem prematuramente arrancadas à vida.) As pessoas não entendem que as flores mercadas estão em coma. Arrastam artificialmente o seu viver, munidas pela rega metódica, para ser adiado o seu murchar. Disfarçam bem o coma em que as mergulharam. Da mansarda em que me encontro vejo viçosas flores silvestres que se desprendem dos arbustos, vejo como embelezam a paisagem no seu crescer anárquico e isento de indústria. Como prova da homenagem às flores que o passado condenou a caírem nas jarras dos falazes adoradores de flores, deviam instruir as crianças a contemplarem as flores silvestres no seu habitat natural. E as demais flores, as que agora são negócio, deixariam de o ser e estariam disponíveis para contemplação em espaços dedicados. 

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