1.11.04

O deslumbrante mundo da moda

Narração de Rafael, jovem manequim que fez da moda a sua profissão.

Desde os bancos da escola que tive uma atracção pelas passerelles. As notas eram uma desgraça. Tinha alguns professores que não faziam comentários abonatórios à minha inteligência, o que me deixou perplexo: nunca cheguei a compreender o significado dessas insinuações. Estava visto que a escola não era o meu futuro. Mas também não queria dar com os costados nas obras, ao lado dos grunhos que arrotam a cerveja que engolem sem parar durante um dia de trabalho.

Para compensar a falta de jeito para os estudos (um tio mais rude chamava-lhe ausência de inteligência), aproveitei-me do palminho de cara que Deus me deu e fiz-me à vida. Construção civil não – mas ser funcionário público, como uma tia sugeria, também não me enchia as medidas. A minha vida precisava de uma actividade mais frenética, fora dos padrões cinzentos do cidadão comum. Se não tinha perfil para acartar tijolos e fazer cimento, também me angustiava estar oito horas por dia sentado numa secretária a despachar papel anódino.

Foi o palminho de cara que me salvou de um uma vida insossa. Aos dezassete anos tinha uma namorada que, a bem da verdade, foi apenas um aproveitamento oportunista. Nada me atraía nela. A não ser o facto da mãe ter uma agência de manequins. Lá a fui aturando durante algumas semanas, até que lancei o anzol: perguntei à mãe, numa das poucas vezes que visitei a casa de família, se não me dava uma oportunidade no mundo da moda. A senhora olhou para mim de cima a alto e, passados uns segundos de avaliação, lá concluiu que eu até tinha pinta para a função.

Fiz o casting. Como ia bem recomendado, não houve dificuldades em ser apurado. Acabava de entrar no universo dos manequins. Estava eufórico! Agora só faltava ter um pouco mais de sorte para vingar no meio. Já tinha ouvido conversas sobre a concorrência selvática entre os manequins. Que vale tudo, que toda a gente tenta trepar à custa do parceiro. Preparei-me para não fazer amizades no meio. Mas fui mantendo um comportamento cortês, sempre bajulando quem devia ser bajulado para subir na escala. E enquanto não me assegurei de que estava a ter um bom desempenho, enquanto as primeiras passagens de modelos não trouxeram encómios à minha performance, lá fui aturando a namorada que foi a porta de entrada neste mundo fantástico.

O sucesso foi-se acumulando. Os elogios vinham, uns atrás dos outros, de pessoas cada vez mais importantes. Dei o salto para o estrangeiro. Pressentia que o estrelato estava ali mesmo ao dobrar da esquina. Senti que tinha chegado o momento da emancipação. Tentando por propostas de agências internacionais, desliguei-me da empresa de agenciamento portuguesa. Foi o golpe de misericórdia na namorada que já aturava há quase dois anos, para desgosto e ira da mãe dela, que não se cansou de me acusar de ingratidão (como não tinha o dicionário à mão, fiquei sem perceber bem do que era acusado…).

Ao fim de dez anos de profissão, continuo deslumbrado. Não tenho que puxar pela cabeça. O glamour basta para ter o meu bem-estar preenchido. As festas depois das passagens de modelos, até altas horas da noite, com pessoas conhecidas e desconhecidas que todavia me tratam como se fossem conhecidas, as drogas que fazem prolongar a festança – tudo isto preenche-me. Agora ganho bom dinheiro. Sou requisitado para as passerelles portuguesas e internacionais. Tenho fama, sou desejado pelas mulheres que me adoram (pena que algumas pastilhas que me dão em festas tivessem um estranho efeito de perda de apetite sexual…).

Não me interessa que as roupas que desfilo sejam bizarras, produtos da imaginação delirante de estilistas esquisitos. Daquelas roupas que, logo à primeira vista, todos vemos que ninguém seria capaz de trazer para a rua, no dia a dia. Isso não me interessa. Aliás, por isso é que eu e os meus colegas desfilamos com cara de poucos amigos: tão extravagantes são as roupas, que só um lunático fora do seu juízo algum dia teria a ousadia de as trazer para a via pública. É também por este motivo que desfilamos todos desengonçados, como se a perna direita quisesse atropelar a perna esquerda, como se a qualquer momento se soltassem peças do esqueleto desconchavado de figuras anorécticas que todos somos.

Há dias, numa das raras visitas aos meus pais, perguntaram-me se já tinha pensado sobre o meu futuro – o que irei fazer depois de deixar de ser manequim, esclareceram-me, perante a minha incompreensão. Nunca pensei em tal coisa. Vi um esgar de tristeza nas faces dos meus pais, que também não consegui perceber. Uma noite, estava já muito alucinado pelas substâncias que corriam com abundância de mão em mão entre os convivas, aquela pergunta assaltou-me a cabeça. Como não consegui ver futuro para além da efémera vida de manequim, comecei a sentir-me preocupado. E daí talvez não: estes foram anos de vida intensa (vazia, dizem os críticos; mas, lá está, fico sem perceber o porquê desta crítica…). Se calhar, depois das passerelles, para evitar a depressão, a vida já não faz sentido. Pôr um ponto final, será a solução para evitar o vazio que então virá?

Nota: esta não é narração directa do Rafael. Pouco mais que iletrado, nunca conseguiria alinhavar meia dúzia de ideias. Alguém terá feito o trabalho de escrita por ele, após horas intermináveis de entrevistas, verdadeiro sacrifício para o infeliz escritor que tem que ganhar a vida com tarefas desprestigiantes como esta.

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