13.8.19

Pressão atmosférica (short stories #140)


Rodrigo Amarante, “The Ribbon” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=PeqpKfK0la4
          Que não é o céu que nos cai sobre a cabeça: é este céu de chumbo, o ar pesadamente tropical, um fim de tarde paradoxal. Não estamos habituados. Ou temos sol e canícula, ou as nuvens tomam conta do dia e o ar sente-se ameno. A menos que as circunstâncias do tempo se joguem contra o tempo: a meteorologia conspira contra o tempo ditado pelo calendário e no tabuleiro joga-se a coincidência de pares que costumam ser alternativas. Não temos medo. O céu não vai desabar, por mais que o sintamos a apertar a jugular e a ficar próximo do chão por onde estamos. Pode ser que o céu de chumbo seja generoso e deixe em legado uma chuva rejuvenescedora. A chuva irá trazer um alívio da asfixiante quentura que é um embaraço para um ato tão rotineiro como respirar. Não estamos habituados. Não é a medida do tempo que o lugar nos habituou: esta meteorologia veio emprestada de outras paragens. Não temos medo. Como em tudo na vida, o quadro que consideramos normal admite feições de exceção. No mercado dos instantes, devíamos ter aprendido com a regra da escassez que os economistas ensinam. Quando temos entre mãos algo que é raro, devemos aproveitá-lo até sentir que o exaurimos. Sem termos medo de que nos acusem de delapidação dos recursos do ambiente, que este não é um caso desses. Sabemos que o céu de chumbo não cai sobre as nossas cabeças. Saímos à rua. Respiramos com todos os centímetros dos pulmões para aprendermos o ar torridamente húmido a que não estamos habituados. Se fôssemos enólogos do ambiente e sobredotados no quilate do ar que respiramos, diríamos do ar desta rara colheita: ocre com notas de canela e uns laivos laterais de noz moscada, vindo a pimenta rosa ao de cima no apuramento final dos odores deste ar estranhamente tropical. 

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