Angine de Poitrine, “Zugzegk” (live at the Tonight Show Starring Jimmy Fallon), in https://www.youtube.com/watch?v=38rvtcwhuw4
Calçava botas sem cordões e usava casacos puídos. Não era por carência. Nunca se importou com os predicados da estética e ainda menos com as considerações, avulsas ou sistemáticas, que sobrem ele os outros faziam. Menos ainda quando misturavam a sua austera, propositada condição, com a confortável condição material a que teria acesso, caso fosse da sua preferência.
Não primava pela cortesia. Menos ainda pela simpatia. Não se lhe conhecia família própria – por ser um lobo solitário, sem ser dado ao próximo, ninguém se candidatara a apurar a sua situação familiar; era mais fácil concluir que não tinha família conhecida. Não se prestava a grandes conversas, mesmo quando era obrigado a articular umas palavras na interação obrigatória ao dedicar-se às coisas do dia-a-dia de que não se podia furtar (compras na mercearia, o café diário, a extravagância de um gelado nos dias em que o calor apertava a jugular – mas só nesses). Era como se rosnasse quando pedia o pão, ou os legumes, ou o café; rosnava menos quando decidia sobre os sabores do gelado.
A higiene pessoal não figurava nas suas preocupações. Espaçava os banhos para além dos padrões ora considerados: uma semana, uma semana e meia. Como dizia um poeta, uma pessoa habitua-se depressa à falta de banho, o corpo fica a cheirar a frutos tropicais. Como não partilhava a vida com ninguém, só prestava contas do mau cheiro a si mesmo.
Quando o Verão entrava em força, e não conseguindo aturar o termómetro quando subia dos trinta graus centígrados e as pessoas se aliviavam de indumentária e calçado, vingava-se nos figos garbosamente exibidos nas mercearias, para gáudio dos comerciantes que abusavam da margem comercial porque sabiam que as pessoas faziam rimar Verão com figos. O homem, com o cenho carregado, movia-se como um agente secreto, criteriosamente apurando se ninguém o estava a ver. E depois pegava num boião de mel e borrava os figos, como se os estivesse a marcar com a doçura que não devia estar em falta aos figos.
Um dia distraiu-se e o merceeiro apanhou-o em plena função. Perguntado sobre a razão do gesto, respondeu: borro os figos em mel, não vão alguns estar azedos. O homem carrancudo preocupava-se com o negócio dos merceeiros, não fossem ser acusados de venderem produto danificado. Afinal não era tão misantropo.
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