Fontaines DC, “Marianne”, in https://www.youtube.com/watch?v=lWNxWy012Ro
Há-de um de nós saber ler a partitura onde cifrados se escondem os segredos que se desenfastiam da rotina que condena as pessoas à baça homogeneidade. Os verbos e os substantivos, dispensando a desajuda de adjetivos que soem contaminar a lisura das frases, serão antecipados ao tempo tirano. E nós, recusando rituais por não querermos ser reclusos de prisões que caucionámos, afastamos os medos que tremem as veias inferiores, ameaçando com vulcões medonhos.
Estamos reféns do tempo. Quantas vezes por dia olhamos para o relógio? Não se diga, a nosso favor, que pedimos contas ao relógio só para não estarmos perdidos no tempo; a incorrigível pontualidade não ajuda a situar um, todavia, fortuito vício do tempo. Dizemos que as clepsidras que nos inundam são os mapas do tempo. Para sossego próprio, um pretexto.
Sem reconhecermos que estamos sequestrados pelas viagens que fazemos pelas várias camadas do tempo, amarramos a vontade ao domínio exterior, hipotecando-a. Ninguém é livre nesta armadilha que chega ao palco sem se anunciar. Ninguém é livre enquanto a liberdade se hipoteca na floresta onde o que nos é exterior acaba por impor a vontade.
Na mesa do lado, dois estroinas em andrajos de trabalho deslizam o olhar viscoso à medida que uma mulher vistosa se encaminha para o balcão. Na mesa da frente, duas senhoras sexagenárias trocam impressões sobre os cochichos das revistas cor-de-rosa, alarvemente transformados em matéria noticiosa. Ao lado, dois senhores aparentemente bem compostos comentam a atualidade política, não escondendo o encanto pela fação do parlamento onde têm lugar os taberneiros. Na mesa atrás, dois reformados discutem a arbitragem do futebol e como os clubes dos outros são sempre os favoritos dos árbitros.
O café devia anestesiar o som à volta, como se uns auriculares subissem aos ouvidos para silenciar as conversas de café. Para o café não se tornar um lugar indigesto.
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