The Waterboys, “The Pan Within” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=qQ3WqNWcXo4
Há economistas e economistas. Ainda bem que a pluralidade existe na ciência. Todavia, a Economia continua a manifestar tendências dominantes, um sinal que atravessa transversalmente os tempos. O paradigma dominante pode mudar, mas existe sempre um paradigma dominante. Na Economia dominante, ou ortodoxa, um dos principais pressupostos é a escassez de recursos. Ao reconhecer que os recursos são escassos, a Economia discute as possíveis utilizações alternativas de uma combinação de fatores que são, por definição, escassos. A escassez é intrínseca à natureza finita do mundo.
Os economistas são confrontados com esta restrição. Devem procurar uma combinação ótima na afetação de recursos que maximize os resultados económicos. As circunstâncias (geográficas, culturais, políticas e os constrangimentos e oportunidades herdados do momento) pesam na comparação das várias alternativas de utilização dos recursos escassos. A promoção de um conjunto de recursos em detrimento de outro resulta da combinação daquelas circunstâncias e do próprio sopesar que os economistas (enquanto consultores de políticas públicas) e os políticos (enquanto titulares da decisão) fazem de todos os fatores que possam pesar mais do que outra utilização alternativa.
Um dos maiores paradoxos da Economia ortodoxa é basear-se no axioma dos recursos escassos e consagrar o crescimento como o valor máximo que norteia a economia (e a Economia). Se os recursos são escassos, esbarrando na finitude do mundo e, em casos mais sensíveis, na irreparabilidade dos recursos a partir de certa fasquia de degradação, como pode a Economia ser comandada pelo imperativo categórico do crescimento? Para crescer mais é preciso usar recursos com mais intensidade, o que contraria a lógica da sua escassez. Talvez os economistas ortodoxos se vejam como alquimistas: ser-lhes-á pedido o milagre de conciliarem crescimento com escassez de recursos. Terão de fazer (ou apenas propor) o milagre de fazer mais com menos. O que, atendendo à dependência da Economia em relação à matemática, desafia a ponderabilidade aritmética.
(Os economistas ortodoxos contraporão, nesta altura: é possível o milagre da “multiplicação dos pães” se as condições em que funciona a economia forem alteradas – um salto tecnológico é um exemplo de que como passa a ser possível fazer mais com menos. O que não é considerado, neste conto de fadas promovido pela Economia dominante, é o dispêndio de recursos inicial para alcançar aquela inovação tecnológica, e que esse dispêndio, em vez de ser calculado como custo, é interiorizado como um custo de oportunidade e disfarçado enquanto custo).
Muitos dos recursos que alimentam a quimera do crescimento provêm do planeta. Saltando por cima da querela permanente entre os que enfatizam os danos irreparáveis no ambiente e os, do outro lado da trincheira, que ora suavizam esse diagnóstico, ora negam o estado de pré-apocalipse ambiental, movendo-se fora dos círculos da ciência, parece mais interessante isolar a contradição de termos entre reconhecer que os recursos são escassos e a mobilização dogmática a favor do crescimento. Se tenho um quilo de farinha e consigo produzir 150 papos secos, se amanhã tiver meio quilo de farinha, só conseguirei produzir 75 papos secos. Se me movo, no lado inicial da equação, pelo reconhecimento que a disponibilidade de recursos aponta para o menos em vez do mais, não posso pretender que, no lado final da equação, o mais seja o resultado.
A Economia ortodoxa continuar a depender de modelos que foram dados a conhecer na década de cinquenta do século XX e de teorias que encontram os seus alicerces no segundo quartel do século XIX. A escassez de recursos do final do século XIX era diferente do entendimento que passou a ter em meados do século XX e mais ainda no final do primeiro quartel do século XXI. Prolongar este quadro mental de uma época tão distante e tão diferente é um atavismo que condena a Economia a ser uma espécie em vias de extinção – ou, se a imagem for acutilante, uma ciência em vias de desatualização.
Está é a Economia que mergulha num mundo muito próprio dela mesma, exíguo e desprendido da realidade e do diálogo com outras ciências humanas e sociais. Teimar no crescimento como alfa e ómega da Economia resulta numa colonização forçada da sociedade pela Economia: o crescimento passa a perna aos outros objetivos económicos. Com a agravante de que ao continuar viciada em crescimento, a Economia pode comprometer o bem-estar das gerações vindouras, que podem ser confrontadas com o esgotamento dos recursos e, então sim, com a inevitabilidade do decrescimento.
Uma Economia alternativa devia começar a desalojar a Economia ortodoxa. Em vez de suportar o decrescimento à bruta quando o crescimento deixar sequer de ser mirífico, seria sensato começar a desescalar a Economia e a reconverter as prioridades, tirando o acelerador do crescimento para enfim o tornar compatível com o pressuposto que lhe é intrínseco: a escassez de recursos.
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