13.1.09

Liturgias, há muitas e de muitas formas


A fé move montanhas. Os crentes arregimentam-se numa entrega fiel às causas que professam. É uma militância dedicada. A certa altura, o individualista metódico estaca, admirado, diante da devoção dessas pessoas ao colectivo a que pertencem. Ao colectivo que alimenta a hidra ansiada, a hidra que já tiveram mas que parece ter-se perdido, a crer nos pregões de que não se desfazem, nos vestígios do tempo ido. Onde se personifica a possibilidade de apregoar os dogmas de sempre, os dogmas inalterados, apropriam-se do palco e desfiam uma liturgia muito própria.


Uma liturgia, uma liturgia vermelha. E tal como aprecio a descomprometida entrega às causas que professam, admiro-me como tudo é transformado em meio para alcançar os fins desejados. Tudo é instrumental da ideologia que os agrilhoa na "desivindualização" de si. Até a cultura – alguns dos ícones que consagraram ícones apenas porque eles também se entregaram à militância certa. A poesia como arma de arremesso, peças de catequização das massas mercê das estrofes arrebatadas do poeta, as estrofes que mobilizam os afectos. Por detrás da poesia, um programa político completo. Com a mesma retórica dos funcionários dedicados a espalhar a boa nova da ideologia. Só que embelezada através do encantamento que o poeta soube emprestar às palavras compostas em poema.


Fui moderador num colóquio sobre José Carlos Ary dos Santos. A sala cheia. Com protuberância de camaradas. Encerradas as intervenções dos oradores convidados, o palco para um grupo que veio declamar e cantar a poesia de Ary dos Santos. Como moderador tive que moderar os ímpetos perante a algazarra em que aquilo se transformou, um comício com todas as palavras. Mas um comício para convencer quem? A multidão de apaniguados que lá se deslocou para ouvir decerto o que já tantas vezes teria escutado? Ou seria um incansável proselitismo, na doutrinação dos demais, ausentes da militância a que as palavras da poesia a partir de certa altura engajada convocavam?


Nisto, escutando a alma toda aberta de um declamador enquanto se empenhava com emoção nos excertos do que considero um poema que é, todo ele, um programa de acção política ("Portas que Abril Abriu"), percebi: a performance era como se de uma liturgia se tratasse. Uma prédica que repristinava poemas de intervenção que aglutinavam os crentes, com direito a um dos chavões entoados à exaustão no seu particular combate político – "a luta continua". Não terão percebido, ou não terão querido perceber, que não assistiam a uma sessão de divulgação partidária. Depois caí em mim: tudo é instrumentalizável, até eventos académicos se prestam à usurpação da ideologia que querem imarcescível.


O problema será meu, admito. Não digo que ando nos antípodas daquela ideologia, para não arrostar o desconfortável rótulo de extrema-direita – rótulo que repudio. O problema será meu por conviver mal com a ideia da cultura ao serviço de propósitos políticos, quaisquer que sejam. Quando a cultura, qualquer manifestação cultural, se deixa contaminar por uma ideologia política, é a cultura que se abastarda. Uma ofensa aos poetas, aos pintores, aos cineastas, aos escritores, aos encenadores que se entregam no altar da deificação ideológica que os comanda.


O moderador do colóquio, por dever de ofício, constrangido a silenciar as muitas interrogações que gostaria de ali fazer. Não tenho pessoais preconceitos em ser admirador de poetas cultores dessa ideologia (Eugénio de Andrade, Jorge de Sena). Admirador daquela poesia que soube marcar a fronteira com a política, deixando-a do outro lado da trincheira. Pois trazer ideologias políticas para dentro da poesia é uma infecção da arte, uma subalternização dos poetas.


Sobra o conforto desta ideia: aos que tanto usam palavras que são inanes palavras no seu ideário (liberdade, democracia), ali uma bofetada sem luva, uma lição que deviam aprender não teimassem em permanecer cegados pelo espartilho dos dogmas: as portas de uma casa franqueadas pelos anfitriões para que estes convidados tivessem a liberdade de expressão que usaram como bem entenderam. Teriam encaixe para a reciprocidade caso lhes fosse proposto que na sua casa entrassem poetas proscritos apenas por andarem por ideologias renegadas? De repente, lembrei-me de evocar Ezra Pound, ou António Manuel Couto Viana. Nessa altura, o que seria feito da liberdade (de expressão) de que se convenceram ser penhores máximos?


2 comentários:

eduricardo disse...

Também lá estive.
Agora, ao ler este texto, fico a saber que o debate sobre José Carlos Ary dos Santos foi moderado por alguém cujas concepções estão nos antípodas da poesia do homenageado, da sua forma revolucionária de viver a poesia, da sua forma poética de viver em revolução.

Registo estas palavras do autor:
«O problema será meu por conviver mal com a ideia da cultura ao serviço de propósitos políticos, quaisquer que sejam».
E, mais à frente:
«Trazer ideologias políticas para dentro da poesia é uma infecção da arte, uma subalternização dos poetas».

Maus tempos estes em que um intelectual com estas concepções (de que discordo mas respeito)se vê obrigado a realizar a difícil tarefa de moderar um debate sobre Ary dos Santos!
Pobre intelectual assalariado... No que ele deve ter sofrido para desempenhar a tarefa reside, provavelmente, a explicação do fel que verteu neste escrito...

Para além de todos os preconceitos gastos que ressaltam das palavras com que tenta conspurcar as intenções dos participantes, sublinho, no último paragrafo, a afirmação: «as portas de uma casa franqueadas pelos anfitriões para que estes convidados tivessem a liberdade de expressão que usaram como bem entenderam».
Como assistente ao debate, agradeço a hospitalidade, convicto de que não vi ninguém abusar dela.

Graciete disse...

Caro Professor
Não posso conceber arte sem mensagem,mesmo que transmita apenas beleza e emoção. Mas quando consegue exprimir em simultâneo a luta pela justiça num mundo melhor é sublime. ARY DOS SANTOS é um exemplo.Não acha que este mundo precisa de ser alertado para a catástrofe que sobre ele se está abater?