Jonathan Wilson, “Over the
Midnight” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=kP5xGFbLT-Y
“Vem daí, pago-te um copo!”. O desafio do tatuador foi aceite e os
dois homens caíram nas catacumbas da noite. Tinham passado muitas horas após a
tensão por causa da tatuagem selada com dois erros ortográficos. Paradoxalmente,
o conflito, que podia ter originado um pleito físico (tanta a tensão gerada),
parecia ter acontecido há eras. Manda a verdade que a tensão fora de um sentido
só: o homem, ao ver os erros ortográficos inscritos na tatuagem, ficou enervado
e incrédulo. O tatuador não deu importância. Talvez porque admitia o erro e
queria aliviar a vergonha; talvez porque não dava importância ao sucedido
(pensaria: “ele há tantos erros ortográficos
em páginas e páginas – até em jornais de referência”); ou porque a calma
intrínseca, em flagrante contraste com o visual de groupie de uma banda de heavy
metal, conduziu os acontecimentos para um mar manso.
Jantaram juntos, depois de o
tatuador fechar o estabelecimento, um pouco antes da hora registada. Após do
jantar, o homem recém-tatuado aceitou o repto e os dois mergulharam na noite. Foram
a sítios que só o tatuador conhecia. Era um conhecedor da vida noturna. Percebeu
então por que o estabelecimento comercial só abria depois da hora do almoço. A serenidade
do tatuador tinha um efeito balsâmico. Nem sequer sentia o ardor da tinta
acabada de impregnar sob a pele. Já tinha perdoado o inicialmente tido como
imperdoável erro do tatuador. Só a espaços se lembrava que acabara de tatuar a
frase que levou tanto tempo a escolher.
O tatuador abdicou da pose lacónica.
Falou e falou, quase sem dar oportunidade ao outro homem de dizer meia dúzia de
palavras entre o filão narrativo. Naquelas curtas horas, ficou a par da sua
história de vida. O tatuador era um camaleão. Já tinha sido operário num
empresa de tintas, vendedor de seguros, barítono num coro de igreja, viajara
quase sem dinheiro, era pai de três filhos de três mulheres diferentes, estudou
antropologia (por diletantismo), fez desintoxicação de drogas duras, enamorou-se
de profecias maias e depois renegou tudo, teve um pequeno restaurante e depois
um bar que tinha saudosistas de música gótica como clientela, fundou uma
editora independente com dois amigos de infância, chegou a ser candidato às
eleições locais na lista de um partido marginal (contrariado, só para fazer o
favor a um amigo).
Enquanto bebiam mais uma cerveja,
já quase no fim da noite, o tatuador voltou à casa da partida. Queria apaziguar
a fúria que ainda estivesse aninhada no homem que tatuou com manifesta incompetência:
“Percebo que estejas zangado comigo. Se
estivesse na tua posição, e se desse tanta importância ao rigor das palavras, não
estava contente. Se calhar, nem queria ver mais a minha cara. Quero que saibas
o seguinte: as pessoas que têm medo de tatuar o corpo são levadas por uma
reserva mental que é legítima: têm medo de selar o perene na pele. Têm receio
que a tatuagem seja, a certa altura, atávica, que deixe de fazer sentido – e,
nessa altura, a tatuagem não tem remédio. Já notaste que tenho muitas tatuagens
no corpo. Todas têm um significado – e aposto que se perguntares a mil pessoas
tatuadas, as mil pessoas explicam a razão de cada tatuagem. Eu vejo as
tatuagens como cicatrizes que disfarçam outras coisas imorredoiras que se alojam
muito mais fundo do que na pele: as que se alojam nas funduras da alma. As
tatuagens sobrepõem-se a essas coisas. Destroem a sua eternidade.”
Sem comentários:
Enviar um comentário