23.5.13

“Aqui ninguém vai para o céu”


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGiFl_nGOeMoQoG1Qt3lDRwUdMVsLTAb1TNVKQXMakX0C_uZAqmPJzmcoCOqfvDaPmwPQvHYKj-2c0EXJc8uz3sDm8GulPlyfs2BlrlgSRGvCr3ZFRTZSe-vJx8rH6THD4HqQ-/s1600/lotus+negra.jpg
Aqui a terra é áspera e negra. Ela come os seus próprios demónios. As arestas das rochas ameaçam as gentes se perderem de vista a atenção requerida. Aqui a terra era inóspita, até a força braçal e o engenho a terem arroteado em veigas de fertilidade singular. Aqui os elementos da natureza são agrestes. Tempestades, mar montês, terra vulcânica, sismos, chuva copiosa, ausência de estio. Aqui é uma terra de mar, mas de um mar tão hostil que quase não há pescadores.
Aqui às vezes parece noite todo o dia. Não apetece sair de casa, tão medonha a tempestade desembainhada. E, todavia, os corpos que de outro modo teriam o engodo da preguiça entregam-se à atmosfera pavorosa. Aqui o céu não é azul, mesmo quando as nuvens ditam trégua e deixam à mostra uma nesga de céu. Dir-se-ia que o céu, de tão habituado às plúmbeas nuvens, teve o azul adulterado pela síntese do cinzento das nuvens quase perenes e das cinzas que se acastelam no chão vomitado por vulcões.
Talvez por tudo isto, aqui é terra de gente rude. Sem ser boçal. Os rostos andam fechados, os olhos são vãos lugares de onde não há maneira de arrancar um sorriso, sem um único esgar de alegria. As mãos são um amontoado de rugas e são calejadas. E não são apenas as mãos de quem amanha a terra que ainda seja bravia. É como se as gentes tomassem em si um sobretudo dérmico que as protege contra o lugar inóspito que escolheram para nascer. Pois só de nativos é que fala a gente de aqui, e com défice de almas por mor daquelas que não aguentaram as privações e escolheram exílio. Que se saiba, tirando o sacerdote, o notário, duas holandesas que não falam com ninguém, o talhante e meia dúzia de forasteiros que vieram jogar futebol, a ninguém é dada a coragem de montar vida neste lugar tão longínquo e adverso.
E, contudo, os daqui têm um lema que puseram na bandeira da terra: “aqui ninguém vai para o céu”. Porque tiveram o dom de tornar habitável um lugar que era inóspito. E de tanto sangue trazerem nas mãos que arrotearam o chão rebordão, convenceram-se que o céu é o lugar que habitam. Não precisam de outro céu. Até porque a vida que desabrocha a cada dia que passa é para ser venerada.

22.5.13

Santo padroeiro das almas penadas


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Roga pelas inditosas almas que erram pelos cantos lúgubres do mundo, ó santo padroeiro das almas que se penam. Sê vigilante da sua santidade, que são tantas as penitências que delas se apoderam sem que elas tenham préstimo para as enxotar para o baldio dos desperdícios.
Acende uma vela pelos padecimentos a que os mortais sem sofrimento não dão valor. Oxalá os mortais sem sofrimento não vejam um desfado cerzir-se no porvir danoso que espreita na dobra de uma encruzilhada mal-afortunada. Para os bem-aventurados não troçarem das almas que penam entre os corredores apertados onde o corpo se entrega às dores pungentes. Não te esqueças, ó santo padroeiro, de tomar conta dos possíveis desfalecimentos dos que estão prometidos à errância das almas em dissolução. Mas toma conta dos que mais contam, os que já atravessaram as dores lancinantes do vazio, da solidão excruciante, das constantes reprimendas do tempo pelos arrependimentos estéreis.
Recebe as preces dos que a ti se prometem e toma-as em devida conta. Perfuma os seus dias vindouros com compensações que repristinem o sangue vertido pelos padecimentos interiores que pareciam incessantes. Tinge de cores sumptuosas as dores que vieram de trás; se serventia não lhes falta, ao menos que purifiquem os amanhãs em espera com cores que não são as que foram vindas do tempo pretérito. Adia os cemitérios que o sofrimento dilacerante promete antes do tempo; pois não há maior sofrimento que o decesso, o adeus à existência em forma da mais covarde resignação que pode qualquer alma gentia conhecer. Embebe em tua coroa de espinhos, ó santo padroeiro que proteges os infaustos, com o sargaço que dá ao areal em forma de espantalho da vida. Faz tuas as suas lamentações, deixa que elas as deixem de sentir.
Toma as almas penadas em teu protetor regaço. Convence-as que tu és entidade com poderes limitados, que aos confrades da desdita compete o primeiro gesto que não seja de resignação perante o desvalimento que parece irrefreável. 

21.5.13

Árvore em fogo


In http://jovemurso.files.wordpress.com/2010/12/burning_xmas_tree.jpg

O vestido transparente ondeava na penumbra. Os pés frágeis, desnudados, deslizavam com a suavidade da pele transida pelo frio noturno. Mas o ritual imprecava suas demandas, e nem o frio outonal desembaraçava a vontade de o acatar.

A lua intimidada fazia-se testemunha. Ao longe ouvia-se o que parecia ser o uivar de lobos em desnorte. A casa estava longe, o solo era a cama do orvalho que se deitara sobre as pedras ungidas pelo musgo. Os pés continuavam, frágeis e amedrontados, fazendo o caminho na servidão do desconhecido. A luz tímida da pequena lua não chegava para ser devida candeia. O vestido largo e transparente, que deixava aos olhares tresmalhados a silhueta esbelta, ruminava passos temerários. Espreitou por entre as veredas o que pareceu ser uma fogueira. A luz que se incensava tomava conta do pequeno céu emoldurado no firmamento a que o olhar chegava. Passou a ser sua bússola, pois o temor do lugar desconhecido gritava por alguma luz caridosa.

O clarão ficava mais perto mercê dos pés nus que a atiravam para as proximidades do fogo que incandescia em sua volúpia. Descobriu uma árvore tomada pelo fogo. Uma árvore isolada, as demais sem mácula do fogo, testemunhas da desgraça daquela singular árvore. Nem as faúlhas que fulguravam, furiosas, conseguiam atear fogo nas árvores vizinhas. Seria da humidade da noite, as árvores restantes empenhadas no resguardo do orvalho.

Ficou estática, requentando-se no calor que se soltava da incandescência, mas apoquentada pela fogueira em que se tornara a isolada árvore. Pareceu-lhe ver um vulto desenhado nas labaredas que se despenteavam dos ramos em evanescência. O vulto ensaiava movimentos com os braços, acenava para poente. Do poente não conseguia perceber o que poderia ser almanaque. Fez a vontade ao vulto abraseado que viera das profundezas do fogo. Pela madrugada, já nas suas costas a claridade depunha a vetusta noite, chegou ao fim da andadura. Por diante, o mar.

O cansaço desenhado no rosto e a noite em branco, que deixavam estragos de uma insónia, embaciaram alguma lucidez. Entendeu depois. O nutriente que exclamava pela sua presença era o mar salgado por diante. Não se intimidou com as águas frias. Atirou o corpo murmurado ao mar que julgara malsão. Foi quando lá longe o fogo que deixara a árvore em meras cinzas se voltou para dentro. E ela, molhada e tiritando de frio, foi recolhida por um pescador que a deixou em casa. Completara a tarefa. E ela, enfim, reavivada.

20.5.13

Um pedaço de toponímia


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O arquiteto era figura grada da cidade. Homem notável, assíduo dos salões sociais e em ações beneméritas, eram conhecidos os méritos de praticar o bem em prol do próximo, a intensa vida cultural e a escrita prolífica.
No seu atelier foram alinhavados os esboços de alguns edifícios emblemáticos da cidade e algumas obras públicas que a cidade, em indulgência dos representantes eleitos, lhe encomendou. Jovial, não recusava cumprimentos aos anónimos com que se cruzava na rua. Houve uma altura em que alimentou a esperança de ser o candidato à autarquia por um dos principais partidos. Não fora a sua independente condição, e umas críticas ainda mal digeridas pelo aparelho do partido, e podia ter sido presidente da câmara. O mal fora dos menores, que depressa se convenceu que a ambição política seria lida pela gente quase toda, quando o que ele queria era servir a cidade que ainda estava precisada de um ordenamento de território – coisa da sua especialidade, que ensinava em universidades.
O arquiteto gostava de ser conhecido na rua. Era figura quase consensual pela bondade que praticava e porque escapava a qualquer peleja que um adversário (que os há sempre) provocasse. Não gostava de celeumas, detestava que o metessem numa vara de sete paus em que a polémica fosse gratuita matéria-prima. Alimentou, durante anos a fio, um sonho secreto (só partilhado com a consorte): queria que o seu nome ficasse imortalizado numa rua qualquer da cidade. Numa já existente, atirando para o esquecimento o nome que lá estivesse. Ou numa artéria nova, que carecesse de batismo. Preferia esta hipótese. A aspiração quadrava com a carência, um pouco narcísica, de obter reconhecimento público.
Mas houve outro dia, depois de muito tempo a marinar a ambição a um pedaço de toponímia, em que acordou virado do avesso. Estava cansado de ser figura pública. Cansado de fazer de conta que praticava, desinteressado, a bondade para os desprotegidos. Cansado dos salões sociais onde abundava frivolidade e hipocrisia (tanto que mesmo ele fora contagiado pela maledicência militante dos salões). Cansado de simular entendimento erudita das variadas formas de vida cultural a que comparecia só para marcar presença. Nesse dia tomou uma resolução: não fosse um vindouro autarca lembrar-se de imortalizar o seu nome na toponímia local, verteu em testamento a terminante proibição de o seu nome ser tomado de empréstimo para a toponímia da cidade.
Mudou de planos: já não queria ter uma rua com o seu nome. 

17.5.13

A métrica do ser


In http://www.infoq.com/resource/news/2009/11/good-agile-metrics/en/resources/measure.jpg
Olho as flores. As cores e os aromas que delas proveem. Olho a mobília dos jardins, santuários por onde apetece demorar. Olho ao céu e aferrolho os olhos para não os deixar feridos pela luz do sol. Olho por entre as nuvens, por onde se acama o azul que tinge o céu embotado pelas nuvens dispersas.
Vou mais longe com as pernas em mecânico andar. Olho o mar, como se compõe na sua quietude apesar do vento que sopra mediano. Olho os velhinhos de mão dada, como se fossem juvenis namorados. Olho os automóveis indiferentes, as mansões pomposas, o luxo mausoléu, as donzelas em precário equilíbrio em cima de finos saltos altos, o mendigo do outro lado da esquina estendido no chão a curar a bebedeira que as parcas esmolas puderam comprar. Olho a chuva que destronou o tempo soalheiro. E olho depois para o sol que descompôs a chuva sem arco-íris mediador, como manda evaporar a água do chão perfumado com o odor da terra molhada. Olho, com olhos de olhar, as letras que interessam num livro recolhido ao acaso. Sublinho as que apetece, um pouco ao acaso. Ato os sublinhados para ver se são frases inteligíveis, se os olhos distinguem um fio condutor entre as palavras destroçadas.
Olho os jovens sem vagar, as donas de casa apressadas a caminho da lida doméstica, uma senhora polícia preenchendo a eito o livro de multas, o autarca emproado requisitando genuflexões dos acólitos sem espinha, o músico embriagado com o corpo arqueado sobre o sofá do hotel, a mãe no assento da frente do comboio que, sem pudor, mete o seio ao leu e amamenta o bebé, uma corça arrancada da margem do lago por um crocodilo esfomeado (na televisão), o taxista em acelerado débito de impropérios enquanto escuta o noticiário numa estação de rádio. E olho o entardecer que decai à medida que o copo de vinho se esvazia. Deitando os olhos ao tempo de trás para a frente, enquanto os dentes se arpoam no freio solto do tempo por vir.
Olho tudo o que posso olhar, senhor de uma avidez singular. O olhar é testemunha do pulsar à volta, e pulsa com a sua agitação. Sem deixar que reveses se teçam num teia que sequestra os sentidos e as palavras. Olho por saber que olhar é sentir o viver. E olho, com a singular avidez, como prova de vida que se insurge contra o torpor.