2.2.26

LXXXVIII

Radiohead, “Go to Sleep”, in https://www.youtube.com/watch?v=Fe6X9fLLp0Y


“May pretty horses 

come to you as you sleep.”


Vamos às compras – habitualmente dizem os consortes um ao outro, ou amigos em momento consumista, e ir às compras tanto significa o aprovisionamento de víveres como mercar coisas mais banais, como vestuário e calçado (se bem que não sejam assim tão banais pela possibilidade do cenário dantesco da sua ausência). Ou, numa nota de modernidade, compra-se online o que dantes exigia a deslocação até a uma loja.

Desta vez, a impressão do tempo que nos calhou em azar trouxe uma novidade: quem vai às compras é um país poderoso que quer mercadejar territórios estrangeiros que estão em boa conta na bolsa dos valores geopolíticos (ou apenas na cabeça dos orates que assim decidiram). 

Compra-se uma ilha cheia de gelo aqui, um território remoto ali, um país inteiro, numa situação limite, como se os líderes acordassem depois de um sonho ungido pela grandeza da sua figura, que assim ficará selada nos imorredoiros anais que inventariam os heróis da gleba, e lavrassem a decisão de ir ao centro comercial onde se mercadejam ilhas, protetorados, territórios remotos, micro-Estados e outros que tais. 

Para além de se comprarem terras que pertencem a países soberanos em vez de peixe, presunto, batatas, sapatos, vestidos, vinho ou tabaco, não há um mercado onde aquelas terras possam ser mercadas, como existem plataformas que permitem o encontro entre comprador e vendedor interessados em transacionar um apartamento. A ordem de compra é colocada na imprensa internacional, através da retórica a que se soma a exibição de uma ameaça: ou o vendedor admite negociar, tendo como preço de partida aquele que é declarado pelo comprador, ou este ordena o seu imenso potencial beligerante para tomar de assalto o território que o vendedor não quer abdicar. Ou a venda é feita pelo preço decidido pelo vendedor, ou a terra é tomada de assalto pela marinha, força aérea e exército. Eis a negação da lógica de mercado, que sucumbe aos caprichos da vontade do momento do chefe máximo das forças armadas.

É como se alguém fosse a um mercado de mantimentos e, perante a recusa do agricultor em ceder uma determinada quantidade de couves pelo preço proposto, o comprador mandasse avançar a guarda pretoriana para tomar pela força as couves que o agricultor recusou regatear. Ou, já que se está no domínio da mercadorização da política internacional (que a vulgariza ainda mais), perante a recusa de venda pelo legítimo soberano, a terra fosse anexada por decisão unilateral daquele que detém a força bruta. Uma espécie de nacionalização de territórios na ordem internacional. 

Estes hercúleos exibicionistas da ordem internacional deviam ler Marx para iniciantes. Para perceberem que a mercadorização de terras que se acolhem sob a égide de outra soberania, dando lugar a uma ocupação unilateral se for inviável mercadejá-las, é semelhante à nacionalização de terras tão grata a marxistas de extração autêntica. 

Quando, há uns anos, um tio me disse que a esquerda e a direita deixaram de fazer sentido porque se confundem uma com a outra, e uma toma as dores de causas que sempre foram da outra e vice-versa, não lhe dei crédito. Agora, devolvo-lhe a razão com efeitos retroativos.