Moby, “New Dawn Fades”, in https://www.youtube.com/watch?v=RJUUUOgX8EI
“We’ll share a drink and step outside
an angry voice and one who cried
I’ll give you everything and more
the strain’s too much, can’t take much more.”
Vão rolar cabeças – vão. Em vão, dirão os desconfiados. Os confiantes contrapõem: vão mesmo rolar as cabeças que forem angariadas. Não fossem diabas essas cabeças e, em vez da heresia contratualizada, tivessem alinhado pelos costumes bons e pelos códigos de conduta convencionados.
Um padre não poupa nos eufemismos, ou talvez a palavra “diabo” estale na boca, fazendo soar os alarmes que remexem a consciência. A certa altura, alude ao “tentador”, um eufemismo que me era desconhecido. Talvez sejam essas as cabeças que merecem ser decepadas: são elas as autoras dos convites subreptícios que desalistam pessoas que mereciam a indulgência dos curadores das almas e que, doravante, deixam de preencher os requisitos, passando a figurar entre o (cada vez mais) numeroso exército de hereges.
Por mais que rolar cabeças pertença ao domínio das metáforas, os seus promotores deviam dirigir a si mesmos uma pergunta: de que servem as cabeças destinadas a rolar numa roleta russa apócrifa, se, depois de terem rolado por qualquer ladeira abaixo, deixarem de ter serventia? Às cabeças condenadas a rolar pela ladeira abaixo não se antecipa a possibilidade de serem reconvertidas às propaladas virtudes vigiadas pelos embaixadores dos costumes bons e dos códigos de conduta convencionados.
Um dia, um conhecido disse que deus, e os seus curadores nos lugares terrenos, não deviam dedicar tanto tempo a espantar os diabos que acossam as almas aproveitáveis. Quanto mais tempo deus (a existir) consagrar aos demónios que assomam sob os mais improváveis disfarces, menos é o tempo dedicado à bondade que deve instalar-se nos seus seguidores. Disse, o conhecido, que uma religião que funciona com a mediação do medo perde legitimidade para o ser.
Se as cabeças rolarem (já se sabe: é só uma metáfora), qual é a sua serventia ulterior? São cabeças despedaçadas, inúteis se alguém, uma divindade qualquer, as quiser reconverter. A seguir a rolarem por qualquer ladeira abaixo, têm o destino selado. Há metáforas que podiam desexistir. Nenhuma cabeça devia suportar o anátema de ser condenada a rolar pela ladeira escolhida pelos algozes.
Que alguém diga aos algozes que não são salvadores, são mesmo algozes – e um algoz não salva ninguém de coisa alguma.
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