23.2.26

CIII

The Jesus and Mary Chain, “Head On”, in https://www.youtube.com/watch?v=eGp47YwDZ48


And the way I feel tonight 

oh! I could die and I wouldn’t mind.


Com orgulho, um caso exemplar de insucesso.

(Ou, segundo a nova língua de trapos que por aí se fala, um “exemplo paradigmático”, como se “paradigmático” não fosse “exemplar”...)

Do insucesso que medra no desassombro de julgar e, depois de julgar, decidir. Sem esconder o rosto do erro que pode ser consequência. A covardia dos timoratos leva-os a não sentir a angústia rebentar na boca ao saberem que uma decisão desaguou no insucesso. O medo do erro desumaniza. O mundo parece estar adulterado e agora aprende-se a ser infalível – ou a montar um ludibrioso disfarce que omite a falibilidade intrínseca à condição humana.

Agora, aprende-se a esquecer que errar é humano. Virando as arestas do avesso, como se um eclipse forçasse uma hibernação necessária, ser humano é não errar. Ou esconder o erro ou afastá-lo para a órbita dos outros, mesmo que os outros estejam à margem da responsabilidade por esses atos ou omissões. 

O medo de errar soma mais uma camada às muitas origens da angústia que se tatuam na pele. Não passa de uma farsa. A probabilidade de sermos convidados pelo erro é elevada. Assim o dita a complexidade do mundo. A fuga estrénua do erro, como se o erro depois fosse uma tortura que persegue enquanto o tempo não se esquecer, equivale à negação da humanidade.

A desajudar o diagnóstico, o narcisismo surge como uma febre permanente que acomete a autoestima exigível. É uma luta desigual contra a humanidade enquanto condição que participa da humildade: a autoglorificação, intencional ou como pretexto para obnubilar outras fragilidades, e o escapismo da perfeição demandada, como se a humanidade tivesse sido recondicionada e já fosse possível alcançar a perfeição.

Nunca como agora, foi tão importante confessar a falibilidade. O erro é inato e não deve ser omitido num disfarce que o desqualifica. Talvez este seja o tempo para um elogio do insucesso, que deixa de ser o palco do desconforto do erro. 

Os heróis modernos deviam ser aqueles que sobem ao palco e reconhecem o erro. Prometendo que, da próxima vez, vão errar com mais diligência.  

Sem comentários: