Love and Rockets, “All in My Mind”, in https://www.youtube.com/watch?v=aMnaa__JZbU
“(...) throw us some flowers and we’ll
give you some songs and sunshine.”
Os cavalos centenários tropeçam nas arestas do tempo. São como vozes emudecidas que projetam os protestos que ficariam órfãos se fossem adivinhados nas entrelinhas. Como estão hibernados, as pessoas esquecem-se deles. E, todavia, sente-se o seu cavalgar nos interstícios dos dias, como se abrisse uma fenda entre as horas e os cavalos centenários ressurgissem, impantes.
À medida que as vozes mordem em surdina, contam-se os verbos fecundos que substituíram os adjetivos. As frases perdem tempo quando lhes são acrescentados adjetivos. É como os ornamentos que podiam ser somados aos cavalos centenários: seriam solenes as ocasiões tais, e como solenes que são, os ornamentos convencionais deviam afeiçoar os cavalos. Seriam suplementos em vão, o acolhimento da vaidade dos Homens que os cavalos seriam obrigados a usar.
Os cavalos em frenético trote sopesam o crepúsculo e tomam conta do horizonte. Os olhos, atentos ou desatentos, não fingem a sua ausência. Ruidosos, deixando um rasto de poeira à passagem do trote tempestuoso, ninguém lhes fica indiferente. Evocam almas perdidas no tirocínio do tempo. À medida que se afastam, confundindo-se com o horizonte, o sobressalto fica a pairar por algum tempo. Os cavalos centenários cumpriram a sua função. Como se fossem embaixadores das almas perdidas para o tempo plausível.
À medida que a poeira volta ao seu lugar, sente-se uma tempestade de palavras. Atropelam-se umas às outras, num tricotado gongórico, a espaços ininteligível. São as almas perdidas a ecoar o que ainda conservam no que sobra das almas. Reclamam dos viventes o seu quinhão de uma herança que já lhes tinha sido legada. Os cavalos centenários apressam as cicatrizes dos tempos acumulados. Num diadema resplandecente, arrancam do tempo as suas costuras puídas. São elas que ajudam os viventes a recusar a sedução do frívolo. Pois são os embaixadores das almas perdidas – houve quem dissesse, a reencarnação dessas almas (mas, para isso, era preciso acreditar na reencarnação).
Ninguém sabe onde estão os estábulos dos cavalos centenários, dos cavalos acusados de sedição. Tal como emergem sem aviso prévio, dissipam-se misteriosamente, sem deixarem pegada. As almas de agora muito gostariam de descobrir o paradeiro destes cavalos, mesmo que precisassem pagar a detetives que fossem seus cúmplices. Para deixarem de ser assombrações que expropriam o tempo que conta.
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