Goldfrapp ft. Dave Gahan, “Ocean”, in https://www.youtube.com/watch?v=pSozvePvdek
“I borrowed skin, I borrowed bones
to save me from the hell I’m in (…).”
Não há ratos porque o porão sumiu. Todos fingem uma bravura todavia esquelética. Todos juram que não são responsáveis pelas dissidências havidas, porque as dissidências continuam a ser um ultraje sem remissão.
O porão sumiu e os ratos foram extintos. Agora, todos são um poço de virtudes, antes que o estio se abata prolongadamente e a seca decretada pelo instituto de meteorologia condene o poço à secura. Nessa altura, talvez também se extingam as virtudes, sem que ninguém possa ser acusado de dissidência.
Antes que ao poço aconteça o mesmo que ao porão, as pessoas contratam seguros que garantam a sua perene condição virtuosa. Andam todas airosas, o nariz emproado, a fingirem uma bondade que lhes é extrínseca, até que passem de moda os modismos em voga e se enamorem de outro “paradigma” (ó palavra tão na moda) entretanto abraçado após o atrevimento dos habituais gurus que apascentam as pessoas demais.
Antes que seja cedo, antes que as opiniões sejam uma metamorfose de si mesmas, a apólice das virtudes morde aos ouvidos dos que ficam afónicos se perderem o camarote que tanto custou a garantir. Antes que as opiniões se tornem metamorfoses – e quem não muda de opinião é um desertor?
Dizem que roubaram a pele espontânea que cobre as pessoas e agora, um agora que já leva muitas camadas de tempo em cima, a pele está escondida num verniz feito de hábito e concessões à voz comum que se insinua em todos os lugares, em todos os poros. Se fosse apenas uma miragem, ou um sonho mal escanhoado, dir-se-ia que as sombras que são portadoras das vozes dominantes afeiam as palavras que as bocas espontâneas diriam se não tivessem feito concessões às bússolas apalavradas. Perde-se a alma duradoura, extinta pelo paradeiro desconhecido do porão e pelo estio que afogou o poço numa secura secular.
Antes sejam as mentes descomprometidas lentes que estimam os deslimites que se apuram no inventário a que as almas se sujeitam. Antes sejam como aves que voam quase na vertical, como se estivessem a despenhar num abismo e, no último momento, escapam à catástrofe com uma diligente manobra de emergência.
O tempo está sempre a tempo de ser uma salvação.
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