13.2.26

XCVII

Morrissey, “Notre-Dame”, in https://www.youtube.com/watch?v=SUN_QkLJ2Vk


Before investigations 

they said, ‘There’s nothing to see here!’


Se correr atrás das cicatrizes é a maior loucura que se pode cometer, os manicómios podiam ser extintos. As cicatrizes são o chão a que ninguém pode fugir, nem os diligentes ascetas que se convenceram, num passado remoto, que conseguem dominar todas as circunstâncias da vida (até as que lhe são contingentes). Correr atrás das cicatrizes é o reconhecimento humilde do que se sobrepõe à vontade, tornando-a irrisória quando as sirenes dos contratempos anunciam a alvorada.

Alguém disse que as cicatrizes têm uma gramática própria. Quem comparar as peles de diferentes origens, desde que nelas estejam cartografadas cicatrizes de linhagens diversas, dirá que só ao olhar desatento é que as cicatrizes são transversais às origens dos que se oferecerem à amostra. Elas podem ter uma gramática própria, mas é uma gramática única, que corta a eito as fronteiras, os diferentes idiomas, os diferentes legados transportados por lastros culturais que também são diferentes. Melhor seria dizer que as cicatrizes têm uma semiótica própria, que ultrapassa as fronteiras idiomáticas. Uma cicatriz causada pela partida de um familiar próximo é parecida em todos os lugares. Uma cicatriz fermentada no desamor é igual aqui e noutras latitudes.

Seria demencial fingir que as cicatrizes não são fraturas expostas ditadas por um certo momento e circunstância. Seria estulto disfarçar as cicatrizes com um sorriso permanente, embebê-las num caldo de positividade mental, tão grata aos engenheiros das almas que se oferecem para conduzir os que quiserem fazer parte de um rebanho consumido pelas angústias. As cicatrizes estão à mostra, mesmo quando o inverno convoca sucessivas camadas de roupa e elas estão escondidas sob toda essa roupa.

Aceitar as cicatrizes e esperar que elas vão sendo caldeadas na pele que se regenera contra a obstinação das cicatrizes, é o que está destinado. Sabendo que há cicatrizes inalienáveis, condenadas a serem tatuagens imorredoiras da pele, e outras, menos fundas, menos estruturais, que se dissolvem com um banho de tempo. 

As cicatrizes não têm de ser um carrasco do futuro.

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