DIIV, “Brown Paper Bag”, in https://www.youtube.com/watch?v=zrSJRo-DOeQ
“So there I go
torn, faded
a brown paper bag
stuck on the ground
down, wasted
just a brown paper bag
again.”
Os heróis estão em terra. Encontraram um cais. Já não são do mar. Deles não se diz que se apropriaram da métrica dos nautas seus antepassados, que nos tempos de antanho partiram em cascas-de-noz para sulcar mares desconhecidos. Esses seriam heróis – ou apenas loucos desapiedados consigo mesmos.
Por terem sido aprisionados em terra, quando antes eram heróis com pergaminhos marítimos, os heróis foram expropriados dessa condição. Quem os chama heróis dá uso a uma metáfora. Ou dá continuidade a um uso semântico oportuno à construção de heróis de que uma terra sempre precisa. Os heróis não passam de uma palavra. Para os desatentos, continuam a ser heróis.
Quando um lugar procura os sinais que cimentam uma identidade, tem de recorrer a heróis. Sem eles, parece que a identidade coletiva se esboroa por falta de comparência. O vazio que se hasteia em mastros que outrora terão sido habitados por bandeiras carregadas de glória está aí à vista dos olhares até desatentos. Ignorá-lo é um disfarce imposto a quem finge que os heróis são matéria em elevada procura, senão todas as bases em que se alicerça uma comunidade não passam de aparências.
E, todavia, os heróis são apenas representações, vultos apessoados em forma fingida de heróis. Com o elevado patrocínio de um povo inteiro que se sente órfão se não encontrar os heróis sem os quais não seria comunidade. Sem estes heróis, o rastilho fica por atear e o povo lamenta a orfandade a que foi destinado. Este é um processo puído à partida. A gesta de heróis não tem substância; são meros fantasmas. Mesmo os de outrora, os tais que terão sido confundidos com meros orates, não merecem o pedestal a que têm direito os heróis. Ou se calhar, falar de heróis é definir uma ilusão.
A fibra fraca de que são feitos os tempos nossos conhecidos anima estas farsas em movimento. Os heróis que dantes eram do mar refugiaram-se em terra. Lá, onde se encontram, dizem os cânones que não há heróis. Parece uma condição exclusiva de marinheiros de antanho que arremataram uma grandeza à qual não estávamos destinados.
Os heróis são todos improváveis, a encenação gasta de uma fábrica coletiva que precisa de bandeiras e mitos. À falta de melhor.
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