4.2.26

XC

Radiohead, “Pyramid Song” (live at Top of the Tops), in https://www.youtube.com/watch?v=2K9GRH4exEM


I jumped in the river, what did I see? 

Black-eyed angels swam with me.”


Há dias que parecem fotografias Polaroid. Difusos, ligeiramente embaciados, como se uma penumbra se apoderasse dos minutos que correm vagarosamente. E as pessoas fossem todas forasteiras, como são os desconhecidos que se cruzam na perene azáfama dos dias de semana. 

Talvez fosse por ser o primeiro dia da semana e os restos da anestesia do fim de semana ainda se fizessem sentir. Razão terão os lúcidos que exigem a semana de quatro dias. A segunda-feira seria reservada para arrematar os efeitos do torpor que se instalou nos dois dias do fim de semana. A segunda-feira seria para fazer a ponte entre o fim de semana e a semana de trabalho (ou de estudo, ou de qualquer coisa para a qual a semana seja destinada). As pessoas desligavam-se da anestesia na segunda-feira e, quando chegassem à terça-feira, estavam pujantes e dispostas a não arranjar subterfúgios porque já era terça-feira.

Isto seria se não se inventasse depois uma causa aprendiz: no terceiro dia de descanso, as pessoas limitar-se-iam ao propósito desse dia e, quando entrasse a terça-feira ainda estariam sob os efeitos anestésicos do fim de semana que agora dura três dias. A terça-feira faria as vezes da atual segunda-feira. E assim sucessivamente, até que a profecia de Agostinho da Silva fosse validada e já poucos quisessem saber dos dias da semana, da serventia que sempre tiveram os dias da semana.

Virando o assunto do avesso, agora que tantos se mobilizam para esconjurar fantasmas do passado que parecem ter ganhado vida nova, protesta-se a favor dos três dias de descanso semanal para que os reavivados fantasmas, se alguma vez tomarem o poder, não decretem um retrocesso civilizacional e obriguem o descanso semanal a emagrecer para um dia. Segundo os que participam do exercício coletivo de exorcismo público destes fantasmas, eles não querem saber dos desprotegidos. A sua retórica, todavia, desmente esse risco, mas pode não passar de um passo astucioso típico da retórica das campanhas eleitorais.

Apurando a probabilidade do retrocesso civilizacional, os mesmos que esconjuram aqueles fantasmas do passado montaram uma campanha permanente de denúncia dos capitalistas que só pensam no lucro e querem oprimir os trabalhadores. O registo das últimas décadas não confirma o espantalho esbracejado: o retrocesso civilizacional não tem confirmação, o que não é de somenos importância, atendendo a que os procuradores que protestam contra a conspiração dos capitalistas têm a certeza de que os mandantes estão a soldo dos capitalistas.

Por cima destas querelas pueris, que muitas vezes servem para fantasmas de outra estirpe fazerem prova de vida, não era mal pensado começar a pensar no tempo sem ser pelo viés da quantidade, medindo-o pela qualidade que ele encerra. E então, talvez deixassem de existir métricas objetivas do tempo que devem servir para toda a gente. Esquecendo que o tempo é feito de uma métrica tão subjetiva quanto as diferenças entre as pessoas.

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