Interpol, “If You Really Love Nothing”, in https://www.youtube.com/watch?v=q52YORZ3lrc
“If you really love nothing
on what future do we build illusions (...).”
Avistavam-se eleições no calendário. Ainda faltavam alguns valentes lustros de meses para que os cidadãos fossem alistados e pudessem contribuir para o processo democrático.
À medida que as folhas em falta iam sendo debulhadas pelo tempo no seu sacerdócio usual, ninguém queria comparecer como candidato. As habituais movimentações de “notáveis” foram todas condenadas ao malogro: bem se esforçaram os “notáveis” por empurrar alguns quase notáveis para o protagonismo eleitoral, mas as sucessivas tentativas foram em vão. Por uma ou outra razão, todos os candidatos a candidatos apalavrados pelos movimentos extáticos de “notáveis” saíram de cena.
A certa altura, o conciliábulo dos “notáveis” – onde todos, independentemente da estirpe e da trincheira que ocupam, se reúnem nos momentos mais graves da nação – fez soar o alarme: corriam o risco de ninguém avançar como candidato e a eleição ficar deserta. Os “notáveis” desconfiavam que a apatia seria o húmus ideal para aparecerem candidatos de última hora sem as credenciais para o serem; aqueles naturais arrivistas que de si têm uma imagem superior à devolvida pelos espelhos em que se consomem, mas cujos elevados índices de autoestima fazem disparar a sede de protagonismo, que é saciada com o estatuto de candidato. Mas nem estes arrivistas avançaram. Os “notáveis” não conseguiam perceber se estes desqualificados possíveis candidatos estavam à espera do derradeiro momento para lançarem a candidatura nas costas dos demais, ou se era mesmo uma crise de personalidades e não personalidades que fazia pesar a ameaça de uma eleição deserta.
Alguns peritos que estão de atalaia às placas tectónicas da sociedade puseram o dedo na ferida: esta era uma crise existencial da nação, que não tinha filhos diletos com as credenciais necessárias para concorrer às eleições (desconsiderando todos aqueles que, atendendo aos requisitos mínimos, não estavam motivados a candidatar-se). A vacatura das eleições era sinal de uma terrível doença que se abateu sobre a comunidade. Ninguém prestava para ficar à frente dela.
Outros peritos, menos apocalípticos, viraram o ângulo de análise: a hipótese de as eleições ficarem desertas não era sinónimo de uma crise existencial da comunidade; era o muito humilde reconhecimento de que ninguém tinha as qualidades para assumir o lugar. Em vez de ser considerada uma crise existencial, era o efeito simbólico de que os que têm fracas qualidades (ou não as têm de todo) não merecem ser candidatos e muito menos eleitos. Estes observadores mais realistas aproveitaram a ocasião não só para aliviar a angústia que começava a pesar sobre a comunidade, como também perguntaram aos notáveis senadores, os que teimam em tutelar a comunidade, por que não tiveram eles a coragem de se sujeitar ao escrutínio.
A grande crise existencial não era a eleição ficar deserta por ausência de pergaminhos mínimos para o posto. Era a dependência atávica de figuras senatoriais, que deixam que os chamem “notáveis” sem se incomodarem e que, nos bastidores, cozinham os candidatos que vão a jogo.
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