12.2.26

XCVI

Anna Clavi (ft. Iggy Pop), “God’s Lonely Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=VwM4MNdz8v8


I wanna do more than just survive

I wanna be somebody tonight (…).

I wanna do more than just survive

I wanna light my body on fire.


As horas sem nome acordavam no estertor da noite. Tinham esconjurado os medos que acompanham a luz diurna. Ficavam à mostra, a sua visibilidade a arcar sobre o peito sobressaltado que atravessava as horas com uma dor lancinante, a dor de um medo que se consumia nas ruas desertas por onde passava o pensamento.

A noite era o exílio; o sono era o autêntico exílio. As pessoas tangíveis não colonizavam os sonhos. Eram apenas personagens que se escondiam das fronteiras que costuravam os limites de suas pessoas tangíveis. Era o sono-refúgio que dava corda aos sonhos que não tinham lugar próprio nem tempo definido.

Esta era a noite que dispensava a luz que a tingia com uma claridade artificial. Era a noite paradeiro, sem nome próprio, a noite que industriava o seu luar através dos dedos diligentes dos arquitetos do sonho. Os dedos levantavam-se em gestos gentis e desenhavam a silhueta das personagens que habitavam o próximo sonho. Os dedos escreviam, sílaba por sílaba, numa ordenação criteriosa das palavras, as que subiam às bocas das personagens que tutelavam o sonho. E depois deixava acontecer, o sonho caminhando pela sua própria vontade e o seu autor, já desapossado dessa condição, a ser levado no caudal dos acontecimentos congeminados pelo acaso do sonho, apenas espetador do sonho.

Um dia, prometeu registar num caderno próprio os contornos dos sonhos. Teria de ser logo ao amanhecer, para impedir que o avanço do dia atraiçoasse a memória possível e adulterasse a gramática do sonho. Nunca cumpriu a promessa. Raras eram as vezes em que se lembrava do sonho; tinha a consciência de que um sonho o tinha visitado durante a noite, mas perdia a noção dos seus exatos contornos. Os sonhos tinham um prazo de validade curto. Ou então, acertara a memória para ser seletiva: ela esquecia-se depressa da matéria dos sonhos porque temia que, se assim não fosse, se os sonhos acabassem vertidos em letra de forma no caderno angariado para o efeito, depressa desertassem para parte incerta. 

Era o que menos queria que acontecesse. Os sonhos, mesmo quando eram pesadelos, eram o refúgio das agonias diurnas.

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