Royal Blood, “Pull Me Through”, in https://www.youtube.com/watch?v=O86BYcAHuD4
“Sinking to the bottom, lost but not forgotten
down I go again, heart swinging like a punch bag.”
Uma das lições de moral que é brandida algumas vezes – uma das poucas lições de moral que não desata o desejo súbito de ser pária em relação a ela – é a reciprocidade. Fazemos o bem aos que bem nos fazem. E podemos fazer depois de o bem nos ter sido feito, devolvendo o obséquio, pois a bondade não é excessiva nem se malbarata quando é espontânea e não está eivada de segundas intenções. Ou nossa pode ser a iniciativa de bem fazer a alguém, sem termos de esperar que, da sua parte, haja reciprocidade. Porque fazer o bem só para estar à espera da reciprocidade esgota o sentido do bem que foi praticado à partida.
Os filósofos fornecem o substrato da reciprocidade ao advertirem as pessoas, possivelmente entretidas com as exigências do quotidiano e com outras coisas do domínio da frivolidade, que é um princípio de comportamento que previne a beligerância entre pessoas e cauciona uma existência pacífica: saber estar no lugar do outro. Ou, como se diz nos países anglófonos, calçar os sapatos do outro (forjando uma medida universal do calçado, sem a qual a metáfora é irrealizável e a compreensão da pessoa comum fica comprometida). Antes de sermos praticantes de uma maldade, ou de o nosso comportamento colocar o outro numa posição desconfortável, devemos inverter os papéis e tentar imaginar a dor ou o desconforto causados por essa inversão de papéis. Temos de ser capazes de sentir a dor por sermos vítimas de nós próprios.
Mas a reciprocidade não deve ser sempre recíproca. Não deve replicar o mal. A reciprocidade deve ser assimétrica. Deve cingir as baias do admitido; é nesta circunstância que devemos ser recíprocos ao bem que nos é feito, não como compensação do outro que nos destinou um ato da sua bondade, mas como gesto intrínseco de um código de conduta que nos coloca nos antípodas do mundo hodierno. Praticar a reciprocidade tem o dom de alargar a rede dos que se comportam de acordo com um código de conduta que esconjura, à partida, os usos indevidos que dele possam ser feitos. A reciprocidade, quando está em causa devolver um mal, adultera o código de conduta. Para a reciprocidade assim entendida, devolver um mal não é reciprocidade: é apenas vingança, com todo o rancor que vem de braço dado com ela.
Se a reciprocidade for recíproca, tecendo uma rede de reciprocidades que se densifica ao ser usada como disfarce da vingança, tingimos a espécie com as nuvens sombrias que se acastelam no horizonte dos seus adversos modos de estar. Se a reciprocidade for recíproca como reação ao bem, ela multiplica-se como se fossem os frutos colhidos num Éden quase só quimérico.
Sem comentários:
Enviar um comentário