Radiohead, “My Iron Lung” (live at Pinkpop 2001), in https://www.youtube.com/watch?v=BibOPQIIKJI
“The head shrinkers
they want everything (...).”
Quantos graus na escala de Richter teria o sismo se alguém se lembrasse de escrever uma peça de teatro intitulada “Anabela e a beleza de matar esquerdalhos”?
(Primeira observação, para o(a) leitor(a) não tirar conclusões precipitadas: este texto está muito longe de ser um panegírico ao protofascismo – para mim, a modalidade é execrável; mas incluo na confraria dos não recomendáveis os que se alistam na esquerda radical e na extrema-esquerda e pouco ficam a dever aos protofascistas na linhagem dos totalitários.
Segunda observação: a hipótese formulada, que serve de ponto de partida, aproveita intencionalmente um termo – “esquerdalhos” – que é depreciativo segundo a lente de alguns que povoam a direita. Se o recurso a “fascista” se banalizou de tal modo que o termo se esvaziou de significado, os que gravitam na órbita contrária fazem gala em rebaixar os radicais dessa extração, apelidando-os de “esquerdalhos”.)
Pese embora a declaração de interesses deixada como mnemónica para a interpretação das ideias aqui expostas, admito que a cegueira de fação que consome a lucidez dos radicais que não aceitam ser assim tratados depressa tenderá a encostar-me às imediações dos protofascistas. Será um problema de quem julgar dessa forma. A exacerbação dos sentidos e o caldo de emoções destravadas em que fervem os radicais impedi-los-á de reconhecer o lugar em que me situo, o lugar de um moderado que tanto se incomoda com o radicalismo dos protofascistas como dos radicais de esquerda e de extrema-esquerda.
Já vão longos os prolegómenos. Quando assisti à estreia da peça “Catarina e a beleza de matar fascistas”, em Guimarães, fui testemunha de um ataque de fúria (quase) coletivo da audiência quando a personagem do fascista se liberta do cativeiro a que tinha sido condenado pelas Catarinas, sem recurso ao sistema judicial (remetendo para uma a-judicialização muito grata aos mais radicais dos radicais nos tempos do PREC). Assim que se apanha em liberdade, o fascista discursa, longa e eloquentemente, num texto magnífico de exaltação das ideias defendidas por um fascista e com um grau de realismo tal que muitos espetadores bramiram contra o fascista (“morte ao fascista” e “fascismo nunca mais” foram os pregões mais ouvidos na exaltação quase coletiva da audiência).
A peça ganhou tanta popularidade, aproveitando-se da tração do momento político feito de polarização um pouco por todo o lado, que teve récitas de norte a sul e até já foi encenada no estrangeiro (na Alemanha e no Reino Unido, que tenha conhecimento). Há dias, numa das récitas na Alemanha, o ator que interpretava o papel de fascista foi agredido por espetadores que, confundindo realidade com a trama, saltaram dos seus lugares para o palco e acertaram contas com a História com as próprias mãos (julgarão eles).
O que surpreende não é tanto a agressão de um ator por espetadores que não conseguiram perceber que estavam a assistir a uma peça de teatro. O que mais surpreende é que tenha passado tanto tempo desde a primeira récita até que espetadores muito diligentes tenham passado às vias de facto. E assim aproveitaram o ensejo para tirar a palavra ao fascista que tanto quer amputar a liberdade, sem perceberem as consequências do seu ato: quais juízes supremos da liberdade, meteram-se ao caminho para, eles próprios, talvez ungidos de uma predestinação que só eles conseguem discernir, tirarem a liberdade ao fascista que nos quer vedar a liberdade. Já que estes espetadores, e os que em récitas anteriores não reprimiram a ira contra o fascista, não souberam perceber que estavam a assistir a uma peça de teatro, ao menos percebessem que restringir a liberdade mesmo aos que não escondem os seus propósitos totalitários é uma restrição da liberdade, não a sua salvação. Como têm mostrado os efeitos contraproducentes da campanha constante de denúncia dos protofascistas.
(Impõe-se uma advertência ao(à) leitor(a), para não ser treslido outra vez: não, não estou a defender os protofascistas. Apenas estou a argumentar que encomendá-los por conta do diabo tem tido efeitos opostos ao pretendido. A menos que esse mesmo seja o efeito pretendido: há radicais que, sem o mosto pútrido do fascismo e dos fascistas, deixam de ter causa que os mobilize, ficam sequestrados por uma orfandade mórbida.)
O acontecimento ocorreu poucos dias depois de um jovem ativista de extrema-direita ter sido morto nas ruas de Paris por ativistas do France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon, um partido de extrema-esquerda normalizado pela sede de combate à extrema-direita de Le Pen e Bardella. A agressão do ator que desempenhou o papel de fascista na versão alemã da peça “Catarina ou a beleza de matar fascistas” confirma o que muitos, sobretudo à esquerda e daí para a sua esquerda, se recusam a admitir: são tão intolerantes quanto aqueles que querem combater.
Normalizar a esquerda radical e a extrema-esquerda apenas porque são instrumentos de combate à extrema-direita é um risco mal calculado. A sua normalização pode trazer radicais de estirpe não muito diferente dos protofascistas para a mesa da democracia, sem que esses radicais tenham um grama de moderação ou se revejam na teoria e na prática da democracia. Nessa altura, os moderados serão os idiotas úteis de uma agenda quase tão totalitária e destruidora da democracia quanto a dos protofascistas.
Uma peça de teatro, por mais que seja um retrato que se aproxime da realidade, é uma peça de teatro. A trama e a linguagem usadas têm muito de simbólico, não devem ser interpretadas literalmente nem ser o pretexto para despertar pulsões violentas fermentadas pela emergência dos protofascistas que alimentam vozes inflamadas do público durante peças de teatro. Ou, pior ainda, agressões que representam uma tremenda injustiça para um ator que está ali na condição de trabalhador.
Regresso à pergunta de partida: desconheço a dimensão dos efeitos sísmicos de uma possível peça que tivesse como título “Anabela e a beleza de matar esquerdalhos”. É impossível tirar a prova do contrafactual. Mas a pergunta fica aí, a adejar sobre o espírito inquisitivo de quem não se deixa sequestrar pelos diferentes padrões que medem situações em tudo semelhantes.
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