White Lies, “Am I Really Going to Die” (live at NPO Radio2), in https://www.youtube.com/watch?v=skvIHyMKs7k
“I see a rare-looking bird out the cold window
flying like a sun, like a saying I know.”
Era tudo uma questão de bastidores. Desenganem-se aqueles que apregoam a transparência, uma marca d'água da modernidade, porque tudo o que conta e bule com as pessoas deve aparecer sem véus opacos que estorvem o escrutínio.
Os preparos em que o entorno é apresentado diferem, e muito, da sua congeminação prática. Há todo um escol que se dedica a perquirir nos arquivos para entender, com décadas de distância, o que se passou nos bastidores que, por sua vez, ajuda a perceber as decisões tomadas e apresentadas como tais às pessoas interessadas. Os assuntos sensíveis sujeitam-se a um embargo, que é tempo de mais para a revelação em tempo útil dos bastidores que serviram de pano de fundo.
Devem os bastidores saltar para o palco principal, onde se encenam todos os fingimentos que a ele podem subir depois de se terem acertado os termos de uma decisão ou de um acordo nos bastidores? Era exaurir os propósitos dos bastidores. O protagonismo dos bastidores, dirão os seus defensores, explica-se porque assim se poupa o cidadão comum aos trabalhos preparatórios que são exaustivos e apenas têm o demérito de distraírem os cidadãos de assuntos mais substanciais.
Segundo os procuradores do estabelecido, os bastidores não são lesivos da transparência que costuma ser invocada como um bastião da democracia sem arestas. Aos cidadãos deve ser servido apenas o sumo que foi decantado nos bastidores. Não precisam de saber das matérias dispensáveis que foram coadas e que apenas servem para alimentar o lixo doméstico. A transparência não é lesada se aos cidadãos for dado a saber que houve bastidores que confecionaram a decisão que lhes está a ser comunicada. É intrínseco aos bastidores serem bastidores, sobre eles caindo uma espessa cortina que não permite ver de fora para dentro.
O problema é que, muitas vezes, os que participaram nos bastidores abrem a boca. Algumas vezes, fazem-no discretamente, em registo informal, possivelmente apenas distraídos, ou sem conseguir omitir a intenção do deslize: espalham para o exterior fragmentos do que aconteceu nos bastidores, para criar confusão ou boicotar algum decisor que está mais acima na escala, assim tirando o lugar ao inconfidente. Outras vezes, a inconfidência faz parte de um registo informal: o rumor institucionalizado, que amiúde se desdobra num palimpsesto de mentiras, até ao ponto em que o próprio que as alimenta deixa de ter mão na prestação de contas do que é verdadeiro e do que é falso.
A persistência dos bastidores serve para a opacidade que não quadra com a transparência tão em moda. E serve para alguns conspiradores atuarem de dentro para fora, abrindo rasgões nos bastidores, apenas para exibir o seu poder enquanto alguém que participa deles.
A transparência é lesada pelos bastidores e pelos hábitos maus que eles ateiam. Meros figurantes, com aspirações bem marcadas nos oráculos que gostam de empunhar em proveito próprio, crescem nos tamancos e ostentam, com narcísico garbo, um poder que ultrapassa, e por fora, o poder dos que são reconhecidos como autênticos mandantes. Não, os bastidores não são inatos à democracia. Contribuem para a sua adulteração – ou para o seu emagrecimento.
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