11.2.26

XCV

Fontaines DC, “In the Modern World” (live Reading & Leeds 2024), in https://www.youtube.com/watch?v=cOA3fr5_5J8&list=RDcOA3fr5_5J8&start_radio=1


I don’t feel anything in the modern world 

I don’t feel bad.


O espaço nunca deixa de beijar o tempo – e não é um beijo de escorpião. (Dedicado aos velhos do Restelo que fazem questão de continuar a sê-lo.)

Ai, os tempos modernos que magoam tanto. Isto dantes é que era bom; ou: antigamente – ah, e como o antigamente, sobretudo aquele antigamente que existiu antes da nascença de quem o invoca, esses é que eram tempos. Agora, assistimos à corrupção do tempo e do modo, e o espaço que acolhe este tempo torna-se dele refém. As pessoas mudam porque o tempo lhes sopra um vento irrecusável ao ouvido. Mudam por mudarem. Esta será a retórica dos antiquados que fazem gala em sê-lo.

Mas o espaço não deixa de beijar o tempo que lhe é oferecido. Pode debater-se, espernear, tentar parar o relógio ou, pelo menos, fazer de conta que o faz, para que o espaço seja imune ao tempo. Em vão. As alocuções saudosistas preferem a dependência do passado, porque o passado terá sido melhor do que o tempo de agora (o que recolhe a concordância de poucos). 

Pouco conta o juízo que façamos das diferentes camadas do tempo. Primeiro, muitas vezes estamos a comparar dimensões sem termos conhecimento vivido das dimensões comparadas (não é lúcido comparar o modo de viver do século XIX com o do século XXI). Segundo, a nostalgia cava um fosso entre quem dela depende para respirar e o tempo hodierno onde se congeminam as suas vidas. Essa dissonância pode servir de anestesia intencional ou apenas isolar o nostálgico numa cápsula que finge retirá-lo das consumições de um tempo presente que tanto o desagrada.

Os que se exilam na pré-modernidade procuram assimilar no presente um tempo datado. Fogem do tempo moderno e acabam por fugir de si mesmos, pois os demais não vivem agarrados ao pretérito como tábua de salvação que os exime de suportar os encargos do presente. Por mais que o tempo existente motive um incómodo indisfarçável, os nostálgicos já deviam ter concluído que nem o tempo olha para trás, nem eles conseguem obter exílio na embaixada da nostalgia e fingir que não vivem no tempo que os desagrada.

O olhar, se estiver aberto a usar uma lente diferente, servirá ao menos para contemporizar com a modernidade. Para os atávicos que desse modo façam a gestão do comportamento, esta é uma resignação necessária à modernidade que os acompanha. Se não aderirem incondicionalmente à modernidade, ou pelo menos sob o efeito de reservas bem medidas, que saibam conviver com o tempo que veio beijar o espaço em que se encontram. 

Para não sentirem esse tempo como o beijo do escorpião, têm de aprender a ser camaleões.

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