16.2.26

XCVIII

Explosions in the Sky, “Your Hand in Mine” (live at Knockdown Center), in https://www.youtube.com/watch?v=pW4UKWE8vaA


“Enquanto o tigre não pode deixar de ser tigre, não pode destigrar-se, o Homem vive em permanente risco de desumanizar-se.” José Ortega y Gasset.


(Às hordas que aproveitam o efeito de escala para imprimirem uma força bruta aos movimentos que nos desumanizam)

A inocência dos gestos afáveis – um pequeno gesto da empregada de mesa, que pousa a mão no ombro da cliente ao levar o pequeno-almoço, sem que isso seja entendido como uma invasão na integridade do seu corpo – adultera-se quando uma vaga de fundo convoca as pessoas a transformarem-se numa turba. É aí que as pessoas reunidas em turba passam a ser lobos de si mesmas e dos outros que ficam de fora. Como se um vulcão entrasse em erupção violenta e arrasasse tudo ao seu redor.

As modas enquistadas num fervor do momento arregimentam pessoas desprevenidas e outras ávidas de não serem párias para esses movimentos crepusculares. Deixam a atomização de parte, talvez uma sensação que causa desconforto por a confundirem com uma insularidade involuntária que as desprotege. Quando se alistam nesses movimentos multitudinários, passam do minifúndio do ser para o latifúndio de uma multidão inorgânica. A irrelevância da palavra sozinha é substituída pela comodidade de alguém que fala na sua vez. Essa passa a ser a voz de cada um dos membros que se acolhem no santuário que se transforma em turba ruidosa e conspirativa. A turba limita-se a fazer coro aos pregões invetivados pelos gurus que a organiza.

A força gravitacional trata do resto. Como um íman, a horda atrai mais militantes. Multiplica os tentáculos. Os que teimarem em ficar de fora sujeitam-se, primeiro, ao anátema, e, numa hipótese mais exacerbada, possivelmente a alistarem o rol dos defenestrados. A turba perde contacto com a humanização intrínseca à dimensão atomizada dos seus membros. Parece que tudo se transforma porque, atomizados, os membros entretanto alistados na turba receavam ficar à mercê de ataques de uma alcateia que se apodere dos meios de força. É quando a força da razão cede o lugar à razão da força. A caminho da desumanização que se instala grau a grau, até o tempo obrigar a esquecer o que outrora fora estabelecido como fatores intrínsecos da humanidade.

As hordas que avançam triunfantes, estrepitosas e coléricas substituem o genoma humano por outra coisa qualquer que adultera a humanidade, numa metamorfose que a desqualifica enquanto humana, que a coisifica. Uma lobotomia que se aproveita da fragilidade genética da humanidade para desqualificá-la como uma subespécie.

A força da vozearia das turbas, dos que, por falarem mais alto, se fazem ouvir, emudece a lucidez coletiva. Instala-se a autofagia antropológica. Pois se o tigre sobe a palco como animal irracional e não sabe como se destigrar, os humanos desperdiçam a racionalidade que o antropocentrismo lhes ensinou para alcançarem a desproeza de se desumanizar. 

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