Sonic Youth, “Mote”, in https://www.youtube.com/watch?v=-wZNu3v4jh8
“I am airless, a vacuum child (…)
Dream a dream that lies at your door.”
Pende sobre o calendário o estigma do irrazoável. A moderação saiu de moda e, feita a mossa no seu dorso tão exposto, assoma a bossa dos excêntricos.
Cresce o contingente dos que gravitam na órbita do exagero e são tributários do binómio reação-ação – grande parte do que os move é feito de reação ao que recusam com a veemência dos que aparecem em público ungidos de certezas categóricas. Não agem; reagem. Aí se encena a sua ausente originalidade. Agarram-se a uma âncora que não é feita de gestos espontâneos nem se fundamenta em ideias construtivas, limitando-se a ensaiar a oposição a algo que consideram deplorável. Mobilizam-se na insurgência: só são a favor de algo porque antes se organizaram contra algo de sinal oposto.
Os que dão origem a esta contestação apresentam um comportamento semelhante. Notando como a sua superioridade moral destravou uma oposição que se julgava sepultada nas cicatrizes da História, movem-se no combate aos que os combatem. Aos poucos, começaram a esquecer as motivações próprias, um certo ideário que os distinguia. Situam-se convictamente contra os que se lhes opõem; apostam todas as forças na sua destruição. Uns e outros são gémeos no comportamento.
À medida que se antagonizam, cresce a polarização. Apesar da retórica de que se servem uns e outros estar em défice de racionalidade, com o tempo têm conseguido seduzir mais adeptos. A peleja começa a ficar desequilibrada: os exércitos de seguidores mostram números diferentes a favor dos que se mobilizaram contra os excêntricos que, a páginas tantas, sonhavam com a construção de uma sociedade nova ao arrepio do sentir maioritário dos seus membros.
O enquistamento na imoderação esvazia o lugar genético da moderação. Produzindo efeitos deletérios entre os moderados: alguns acabam por ser seduzidos por um dos extremos em contenda, seja através da transferência não mitigada para uma das trincheiras, seja através de uma inclinação mal disfarçada, sem implicar uma adesão descomprometida. Alguns moderados tomam partido por uma das significações exacerbadas, porque se deixam contaminar pela reação aos anticorpos semeados pelo lado contrário da contenda. Outros moderados que, entretanto, migraram para uma das sedes da intransigência talvez estejam no seu lugar natural, descobrindo-se agora que disfarçaram a sua moderação porque o que defendiam não estava na moda. São os covardes de serviço.
A polarização contagia-se com o tempo e com a lucidez que se embacia com o cavalgar das extremidades que se distanciam uma da outra. Sem, contudo, perceberem que se tornam cada vez mais gémeas no atuar à medida que se afastam uma da outra. O sangue da sociedade está cheio de agentes contaminantes. Se a História não fosse apenas uma curiosidade arqueológica e fosse admitida como alicerce antropológico, saber-se-ia que esta patologia pode ser terminal.
Em vez disso, os excêntricos continuam a avivar as diferenças e a encolerizar o antagonismo em que medram. O sinal dessa doença é o sangue em ebulição que determina a prescrição das doses necessárias de moderação para aprender que a tolerância com os outros também atua em proveito próprio.
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