Wall of Voodoo, “Ring of Fire” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=0f5nUqko3Ug
“(…) I fell in to a burning ring of fire
I went down, down, down
and the flames went higher.”
Ainda ninguém inventou a medalha de demérito e já podia ter sido inventada. É preciso ter mérito para arrematar a medalha de demérito. Só quem se aventurou a correr riscos pode ganhar uma medalha de demérito.
Os habituais sacerdotes das coisas habituais diriam, no seu idioma formatado e dogmático, que uma medalha de demérito não se ganha porque se trata de um demérito. Diriam: é uma contradição de termos; e as contradições de termos têm de ser contestadas ou, pelo menos, o embuste deve ser pescado com linha e anzol.
Se não fosse pela medalha de demérito, a quem seria atribuída a medalha de mérito? No parapeito das dicotomias, em que só há excessos que se antagonizam, obliterando todo um vasto espaço que vai de um lado a outro na meação do que é moderado, cada vez mais triunfa a lição de que ou se vence ou se é vencido. Não há meias-medidas. Alguém embainha a medalha de mérito por demérito alheio. Contesta-se a conclusão categórica: o mérito pode ser à prova de demérito dos outros e sublinhar o demérito dos vencidos é desvalorizar os vencedores – é colá-los a um certo demérito, o que se torna paradoxal; talvez isso nem interesse: se, no final da contenda, um tem de sair vencedor e isso corresponde à derrota do outro, pouco importa saber se o desenlace se deve ao mérito de um ou ao demérito do outro.
Mais importante é fazer equivaler a medalha de demérito à medalha de mérito. Sem que a aposição daquela medalha seja um ultraje para quem a recebe. A medalha de demérito não tem de ser um atestado de incompetência; ela apenas reconhece o estatuto de quem não virou a cara à contenda e acabou por sair vencido. A medalha de demérito premeia os que não selaram a vitória, mas que devem ser honrados por terem arriscado sair de casa. Sua foi a iniciativa de impedir que a contenda ficasse deserta, para desgáudio da audiência interessada. A medalha de demérito, sem carregar consigo a conotação pejorativa que a palavra tem no idioma dos lugares-comuns, é um prémio de participação para quem não conseguiu tomar conta da medalha de mérito.
Pior do que uma medalha de demérito é ter a arrecadação vazia, sem medalhas. É o que acontece aos que, timoratos, não saem de casa com receio de serem colados às figuras tristes de quem se arrisca a ganhar uma medalha de demérito. Porque uma medalha, mesmo que seja de demérito, ganha-se. Não se perde.
(Às vezes, por vício próprio de quem não sabe ganhar, da medalha de mérito poder-se-ia dizer que foi uma medalha que se perdeu no regaço do ganhador.)
