E se começasse a partir da casa da chegada? Voltava atrás, seguindo o caminho do avesso para saciar a curiosidade sobre a casa da partida, ou avançava sem saber do caminho por diante, mesmo que ele escondesse um precipício?
Os escombros invisíveis são um revólver surdo apontado à nuca. A prescrição das almas não transige com o desconhecimento do tempo e dos lugares. Se a casa da chegada fosse a casa da partida, haveria sempre alguém a avançar do avesso. Como se as convenções gramaticais e as almofadas dos sentidos fossem estilhaçadas e houvesse quem avançasse para trás enquanto outros recuavam para a frente.
Os sinais indevidos amontoam-se, resguardados pelos usos e costumes, dogmas que não admitem contestação. O papel obediente de cada um é participar do enraizamento dos usos, mecanicamente: as pessoas, guiadas pela pose obediente, limitam-se a cumprir os usos e contribuem para que os usos sejam mais incontestáveis a cada dia que se soma. Ninguém poderá dizer, com total certeza, se a casa de chegada é mesmo a casa de chegada. Os equívocos podem esconder o contrário do que são. Muitos passam ao lado da antinomia dos sentidos e dos significados que trazem agarrados à sua obediente pose.
Se a sublevação dos espíritos se condensar num punhado de palavras, a questão do que é uso e sua contestação desaparece. Deixa de haver costumes que não admitem contestação. Deixa de haver aqueles que se amotinam contra os usos estabelecidos, porque não lhes cabe saber da existência de usos nem de se candidatar ao lugar de párias. Sem o chão atapetado pelos esteios autoinvestidos, aquele chão, que é a zona de conforto em que muitos se refugiam para intolerarem os desvios que abalam a obediência, sobra o espaço vital em que nidifica o lugar individual.
Dispensem-se os usos que sideram a autonomia, apascentando o ser, castrando-o. Não interessa saber se o pórtico corresponde à casa da partida ou à casa da chegada. Cada um usa a sua bússola e escolhe de onde parte e para onde vai. Sem o ardiloso arnês dos que se dedicam a ludibriar a imensa mole humana como se fossem mesmo seus tutores.
“Just try the best you can, if you fail in the end you will try again
take a walk in self-defence.”
(Na véspera do Dia Mundial da Poesia)
James Bond nunca daria um poema. Sobre as suas costas de herói fabricado, as palavras seriam como chuva ácida: mascarravam tudo onde caíssem, infecundas para a poesia. Se um cientista do cinema fosse revistar as muitas vidas vividas dentro da mesma personagem, o literato teria de suplicar para deixar por conta da fantasia o que não cabe na poesia.
James Bond é só uma personagem. Uma máscara inventada para extrair um império da letargia a que o tempo o condenou. Um entretenimento, porque às vezes as pessoas precisam de aliviar a cabeça quando entram numa sala de cinema (não é por acaso que a palavra “entretenimento” vem à tona). Os puristas da poesia depressa avançam para o palco, reclamando para a poesia uma condição que não é compossível com o ludismo que fantasia no limiar das impossibilidades.
Mas a poesia só o é quando veste pose solene, como se os cânones obrigassem a conferir a linhagem heráldica que a eleva a um patamar distinto? Como os que estudam a Política reclamam a omnipresença do político (“tudo é político”, argumentam), não se pode da poesia dizer que tudo pode encerrar um ângulo poético, mesmo o que, à primeira vista, esteja nos seus antípodas? Não se pode estabelecer que o poético seja decantado por cada olhar e que essa subjetividade impeça a consumação de determinismos sobre o poético?
Por este andar – dir-se-á – James Bond é um hino à poesia. Como uma central nuclear, um aterro sanitário, a música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou o político mais execrável – ou como tudo e alguma pessoa a que se queira dar corda da subjetividade e encontrar-lhe um regaço poético. Nem que seja por antinomia: é poético o que está nos antípodas de uma central nuclear, de um aterro sanitário, da música daquele músico que vence aos pontos no estatuto da irritação pessoal, ou do político mais execrável. Ou de tudo o que não é representado por James Bond, porque a personagem bebe inspiração num estatuto sobre-humano que o torna imbatível, mesmo que contra ele fosse atirado um exército inteiro.
A poesia é quando mexemos nas palavras até conseguirmos mexer com o sangue até então letárgico. A poesia é quando congeminamos a musicalidade das palavras e as viramos do avesso para terem um sentido singular. A poesia é quando a lemos e guardamos para memória futura, como vestígio intemporal. Ou o que queiramos que ela seja, agora talvez e no futuro possivelmente já não. Desde que haja poesia e ela sirva de remédio para deixar em hibernação as horríveis feições do mundo, temos um tesouro à medida das nossas mãos.
Esta fragilidade é a maior força que oferece a reinvenção. Ir abaixo e depois levantar-se dos escombros, por mais improvável que pareça. Sem capitular, sem sequer arquear o tronco ao ser empurrado pelo vento iracundo que se pôs. Estar de rastos não é uma sentença definitiva.
A maior força que se oferece ao olhar vindouro é a aprendizagem, não o arrependimento. O arrependimento é um princípio de ação que deve a continuação à aprendizagem. Sem arrependimento não há aprendizagem, mas a aprendizagem pode ficar amputada se ao arrependimento não se souberem somar as cores certas.
O diálogo interior é a alcatifa da lucidez. Embora um cais seja obrigatório para cultivar um criterioso inventário das possibilidades, se for um cais decadente pode apressar a decadência que se instala a cada dia. As possibilidades percorrem o estendal que aconselha a bússola, tiram a bissetriz de que a lucidez se alimenta. Às vezes, é preciso uma aterragem forçada para saber viajar no tempo vindouro. As dores que cicatrizam o corpo fazem parte dessa aprendizagem.
Se não fosse pelos contratempos, a vida seria uma destemperada viagem pelo tempo vazio. Os contratempos angustiam, podem atirar o corpo para um precipício de onde é difícil sair, mas são necessários para dar sentido à vida; são um sal que previne a bulimia dos sentidos. Num cruzamento de contrários, o seu sentido não se afigura se não forem experimentados. O saber apenas teórico fica pela metade se dele se ausentar o teste de realidade.
Uma vida é sempre uma montanha-russa. Dos momentos auge fazem parte, como seus antecessores, os momentos em que a angústia tomou conta do tempo. Sem uns, os outros não têm significado, são impossíveis. Não se consegue saber o que significam as dores pungentes se antes dela não for atravessada uma bonança; não há noção dos prazeres proporcionados pela bonança se antes uma tempestade não tiver trespassado os corpos.
A correria desatada que é a vida está preenchida por este concurso de opostos que formam um todo coerente. A fragilidade não esgota as forças interiores, por mais severas que sejam as consequências. Ela é o forno onde aquece, em banho-maria, a reviravolta que dá sentido à angústia desatada pelo cerco de todas as fragilidades que conspiram no mesmo momento.
“While they’re snuffing out hopes, and they’re blotting suns
they claim to know the form in which genius comes (…).”
Teria as ideias salgadas – ou, havia quem avançasse a hipótese, deixara salgar as ideias e agora elas estavam com bolor. Parecia um carnaval puído a verter vinho sobre as palavras cansadas, corroendo-as a partir das margens até atingir o magma profundo. Foi ultrapassado pelo tempo e não deu conta. Agora estava na borda da prescrição, com o prazo de validade quase esgotado.
Talvez fosse uma conspiração do vinagre e tivesse azedado. Não se diga do azedo do vinagre que seja o seu opróbrio, que na gastronomia há assídua boa conta sobre as propriedades aciduladas dos preparados avinagrados (a correção impôs-se com subtileza, não foi preciso berrar a palavra certa – acidez – em substituição da errada – azedume).
Podia arregaçar as mangas – que figura de estilo despropositada, arregaçar as mangas deixa os antebraços à mostra, nos dias que correm a elevada quantidade de agentes agressores que contaminam o ambiente é uma ameaça à saúde pública. Continuando: podia arregaçar as mangas para lidar com a acidez das palavras tomadas pelo avinagrado; ou podia, apenas, recorrer aos compêndios da gastronomia como a metáfora protetora para corrigir a decadência anunciada pelo sintoma de acidez que havia tomado conta das palavras e das ideias que elas possibilitavam.
Já podia contrapor a acusação inicial: se havia defeito a pender sobre as ideias, não era por serem salgadas (ou por terem sido propositadamente salgadas ao longo do tempo). É de bom tom não ter de lidar com imputações que são tiros ao lado. Já chegam as outras, que atingem a matéria nevrálgica e que diminuem, como se pertencessem a um ataque de ordem pessoal. Rejeitado o pleito inicial, talvez nem tivesse de dedicar muita atenção ao que sobrava: serem aciduladas as suas ideias pode não ser uma matéria diminutiva, ele há quem se deleite com o avinagrado de preparados que vêm da cozinha.
Marcou conferência de imprensa para as cinco da tarde (aqui não há hora do chá imperativo). Não queria que continuassem a apoucá-lo sem razão aparente que não fosse um arbitrário desejo de contribuir para a destruição da personalidade com a mediação de pretextos. Um pretexto, identifica-se. E depois rebate-se, com a persuasão das palavras diligentemente apuradas. Sejam ácidas ou não.
As portas abocanham os clientes que se propõem. O espaço interior é a metáfora desarmada das boas-vindas: ao contrário dos espaços comerciais de requinte, que têm admissão reservada e filas de chineses à espera no exterior do estabelecimento, os outros não são elitistas. A política de porta aberta é sinónima da sua linhagem democrática. Os que nidificam no elitismo e discriminam pelo preço, exigem que se toque à campainha.
A política de portas abertas não significa que os clientes sejam sempre bem-vindos. Há clientes corteses, que sabem respeitar a loja e os empregados, não os tratando como se fossem meras figuras servis que devem satisfazer todos os caprichos do cliente. Mas há os execráveis, que maltratam os empregados e desrespeitam a mercadoria, apenas porque lhes apetece, ou porque nasceram em berço que não soube respirar a boa educação, ou porque não respeitam quem, como eles, trabalha.
Os clientes podem nem sempre ser bem-vindos porque os empregados da loja podem não estar momentaneamente bem-dispostos ou porque um súbito acesso de mau humor deles se apoderou, levando-os a embirrar com o cliente, até possivelmente cortês demais. Ou então, ao testar a paciência do empregado com os sucessivos caprichos e a marcha atrás do cliente, ele deixa de ser apreciado e as instruções da gerência são para dispensá-lo da condição de cliente. Há clientes que mais vale a pena não o serem. O custo de aturá-los não compensa o atrativo da faturação, que é o cerne do negócio.
Quem vier por bem será bem tratado – a menos que a indisposição tenha tomado conta do empregado e este não queira a canseira de aturar um cliente exigente, que entra em detalhes sobre a mercadoria e suplica, indigentemente, um desconto em cima do desconto, o desconto do cliente especial que, todavia, é a primeira vez que põe os pés no estabelecimento comercial. Os clientes evitáveis não são sempre bem-vindos. Sê-lo-ão aqueles que forem convertidos pela mediação paciente do empregado, que lhe dobra o braço teimoso que propende para o capricho, levando-o a comprar até mais do que tinha previsto (e sem descontos suplicados). Quem não vier por bem não pode ser bem tratado, sob pena de os maus-tratos recaírem sobre os empregados que não são pagos a peso de ouro para aturarem a clientela execrável. O que seria uma injustiça atroz e antidemocrática.
Digam, então, se o princípio não pode ser estendido às casas particulares.
O dente de marfim mordia um braço à medida que a noite se despojava. Pelo palco passavam figuras improváveis. Um caçador de pulgas, as fotografias ilegítimas de um sacerdote numa praia de nudismo, o príncipe real em noitada de copos agarrado a dois transsexuais, um famoso político acabrunhado depois de ter perdido uma pequena fortuna ao jogo no casino (mas o conceito de pequena fortuna é sempre subjetivo, não é?), uma pessoa fortuitamente apanhada pelos dejetos de uma gaivota apesar do grasnar em forma de pré-aviso, um cenáculo de líderes mundiais onde dominado pela amena cavaqueira e eles combinavam, em segredo, as próximas fricções mundiais (pois isto de os cidadãos se habituarem à antítese da crise pode-os habituar mal), uma atriz de teatro a atirar uma tarte cremosa às trombas do político mais bazófias de todos, um petiz que se recusa a soprar as velas do bolo de aniversário em protesto contra a matança nos matadouros (recusando qualquer explicação catedrática sobre a razão de um matadouro se chamar matadouro), o CEO de uma empresa cotada no PSI20 a convidar um mendigo para a mesa de um restaurante com uma estrela Michelin, a bailarina, tão frágil, a chorar porque torceu um pé a descer a escadaria do CCB e tem medo de perder a próxima temporada de bailado, os patuscos que, em reunião hebdomadária, puxam os galões ao pior marialva que se esconde atrás do verniz, um gato e um cão a comerem da mesma gamela, um escritor a fugir de entrevistas como “o diabo foge da cruz” enquanto lamenta por ninguém se lembrar dele, o aspirante a lente a perorar alongando-se no seu próprio gongorismo, um livro roubado à biblioteca joanina que apareceu perdido num jardim em Viana do Castelo e que um homem do lixo atirou para o lixo, a mulher impossivelmente corcunda que se arrasta pela rua fora sem que alguém lhe veja o rosto, o empregado de mesa que trata os clientes por “chefe” (independentemente de sexo e de orientação sexual), o juiz do tribunal apanhado num lupanar, o primeiro-ministro a jogar boxe com o líder da oposição (sem ser uma metáfora), a jura de todos perante uma bandeira diferente da ajuramentada, e o dente de marfim, enfim, a libertar o braço ensanguentando o chão com todo o veneno que conseguiu desprender.
Conseguiu penhorar os demónios. E eles, que andavam a embaciar o tempo legível, ficaram presos do lado de fora da janela.
Ainda não estava em si. Só de lembrar como os demónios eram presença contínua, como expropriavam o sono para o encomendar a pesadelos tarefeiros, é como se as cefaleias que atrasavam os dias presentes remissem. Os demónios ocupavam o presente com imagens mal resolvidas do passado. Era como se não houvesse presente, mas apenas o passado continuamente resgatado do túmulo em que devia estar sepultado. E os demónios, vultos sem nomes próprios, vogando daqui para ali, omnipresentes, a distraírem o pensamento com as ninharias que não passavam de uma imagem desfocada do passado.
Sabia que o passado não albergava só estes demónios militantes. O tempo havido fora de proezas e casos que cumpriam os mínimos na hora da gratificação pessoal; o tempo dos demónios não fora inteiro. E, todavia, não conseguia combater as forças gravitacionais dos demónios que insistiam em semear os fragmentos do passado que queria esquecer, não fosse a omnipresença dos demónios pesar na impossibilidade desse esquecimento.
Não se lembrava de quantas juras fizera para mudar este estado de coisas. Como abrira uma exceção para ler páginas sobre autoaconselhamento (logo ele, que detestava os gurus que aparecem em público como cuidadores das almas). Tudo fora em vão – o que, ao menos, trouxera a recompensa de saber que a sua desconfiança metódica dos gurus das almas estava certa. Mas era um trunfo inútil. A confirmação do logro dos gurus das almas não ajudava a esgrimir os demónios interiores que teimavam em povoar o horizonte.
Num ato inesperado, uma inspiração momentânea que exigiu um olhar inédito sobre as nuvens carregadas que hipotecavam a beleza do dia, prometeu cumplicidade com os demónios. Queria que eles acreditassem que estava derrotado e que seria seu aliado: era como atestar uma declaração de decadência prematura, a resignação perante forças que não conseguia tutelar. Enganou os demónios. Estes, deslumbrados com a possibilidade de uma vitória fácil, baixaram a guarda. E ele fechou-lhes a janela.
Quando deram conta, os demónios tinham sido penhorados e não havia forma de levantar o penhor. Agora podia cumprir a promessa de uma vida dedicada às coisas belas que o mundo e as pessoas que o habitam têm para oferecer.
“Hey I would like to surrender to your confusion.”
Não se pode pensar mal de alguém ou de algo, porque pensar é sempre um bem.
Pensar mal de alguém ou de algo é tão maniqueísta quanto a impressão que se fica da pessoa ou da situação que leva àquela reação. Pensar mal de algo ou de alguém é atear uma intolerância que guarda em si uma forma má de pensar. Pensar não pode ter equivalência num mal, por mais que haja quem pense que esse nosso pensar motiva uma rejeição.
Mesmo que pensar mal de alguém ou de algo seja motivado pelo que se considere ser a abjeção do sujeito ou da situação, o simples facto de o pensamento ser ateado impede que se diga “penso mal de…”. Pensar nunca é um exercício negativo. Nem quando, no exercício do livre-arbítrio de que assiste a cada um, se tem uma reação epidérmica sobre o que é dito por alguém ou uma situação que motiva repulsa. Ativar o pensamento para reagir é, em si, algo de bom.
Dizer “penso mal de...” é apenas uma expressão enraizada nos costumes da língua que peca por defeito de significação. É a necessidade de sublinhar à partida que nos opomos a alguém, no que diz ou na situação que causou, que traz o substantivo qualificativo a tiracolo. A reação de discordância dispensa o qualificativo, que pode contaminar o pensamento ativado. Tem sempre de se partir da regra fundacional de que qualquer tipo de pensamento é bom por definição. Mesmo quando esse pensamento motiva discórdia dos outros ou, em situações-limite, é motivo de reprovação quase unânime. O pensamento que esse pensamento gera é bom. Não se pode materializar na fórmula “penso mal de…”, porque não é o sujeito ou o objeto sobre os quais recai o pensamento que arca com o opróbrio; é todo esse pensamento que acaba contaminado.
E mesmo que o pensamento contra o qual se reage seja, desde a nossa posição, indefensável e faça disparar um repúdio categórico, as exigências de tolerância vedam a utilização da fórmula adversativa. Afirmar que se pensa mal de alguém é abrir o precedente para que outros digam o mesmo sobre o pensamento que exercemos. A reciprocidade e a tolerância são válidas para todos, não abrem exceções para aqueles que sejam acantonados na posição de párias. Se assim não for, um dia destes, o cobertor da intolerância será costurado sobre sucessivas manifestações de “penso mal de...”, até que todos pensem mal uns dos outros e das situações de que somos responsáveis.
Nessa altura, quando já ninguém suportar ninguém, dir-se-á, e a eito, que se pensa mal deste ou daquele ou da situação, qualquer situação, por eles criada. O abismo estará mais perto do que nunca.
Eu sei que a cidade tem segredos. Sei que a cidade fala nas entrelinhas das ruas crismadas com nomes de mortos. A cidade esconde pedaços isentos do meu olhar. Acabamos por ser um pouco forasteiros na nossa cidade.
Às vezes, apetece perguntar à cidade se revela um segredo, um apenas. Mas a cidade remete-se ao silêncio feito com o rumorejo ateado pelo burburinho diurno e pelo mistério que toma conta da noite, quando as pessoas começam a rarear nas ruas. A cidade quer que os segredos continuem a ser segredos – é da natureza dos segredos serem inacessíveis, ou deixam de ser segredos.
Um dia, perguntaram se era justo que a cidade se sentasse em cima dos segredos inconfessáveis para reter um trunfo contra a pervicácia das pessoas. As pessoas, incomodadas com o acosso da cidade refugiada nos segredos, começavam a sentir a vingança da cidade. Não é assim que as pessoas e a (sua) cidade tecem os fios de um contrato de pertença. As pessoas queriam que os segredos caíssem desse estatuto; era preciso que a cidade fosse um livro aberto e deixasse os segredos à mostra para as pessoas poderem exercer a reciprocidade com um sentimento todavia indistinto perante a cidade.
No tear intrincado dos segredos por contar, a cidade dominava as pessoas. Parecia que a cidade repousava nas máscaras exibidas, como se provocasse as pessoas que se afogueavam para saber dos segredos escondidos atrás das máscaras. Alguém acusava a cidade de manter viva a maldade sobre os seus habitantes, como se ela dispusesse de uma vingança sempre em lume brando. As pessoas queriam saber por que a vingança estava em lume brando; que mal teriam imposto à cidade para ela se rebelar e manter escondidos os segredos?
Talvez a cidade quisesse dizer que os segredos lhe pertencem, que não podem ser partilhados com as pessoas. A cidade pode querer sinalizar que, embora muito do que ela é se deva à linhagem dos seus residentes, conserva um reduto que a distingue das pessoas. Uma identidade própria, que se deve à vontade própria da cidade por ser independente da vontade das pessoas que são suas curadoras.
Eu sei que a cidade conserva escondidos os seus segredos. Eu sei que não quero saber dos segredos da cidade, porque os segredos das pessoas são tutelados às escondidas dos outros.
(Depois do filme, “A Morte de Belle”, de Benoît Jacquot)
Por mais que se enraíze a pedagogia política que ajuda a cimentar o regime, os sintomas de descivilização acabam por fazê-la cair em saco roto.
Um exemplo (dir-se-ia: desexemplo) é quando a turba irada faz uma espera organizada à porta do tribunal por querer fazer “justiça” (insista-se nas aspas) pelas próprias mãos a um criminoso da pior espécie que ainda vai a julgamento. Outro exemplo é quando um ainda não suspeito de um crime, sujeito a forte reprovação social, sobre o qual se abate um manto de suspeições por fundamentar, sem, contudo, dar origem a uma acusação. E de como a sociedade dos bons costumes, aquela que reage por estima, segundo os maus preceitos do “cheira-me que”, reage com frieza ao suspeito que não o chega a ser, isolando-o num canto onde ficam escondidos os que devem ter cometido um crime, sem que, por enquanto, se confirmem as provas que atestem aquele estatuto. Como se fossem condenados a uma hibernação cautelar que os acantona num lugar que os demais, as “pessoas de bem”, devem evitar.
A reação epidérmica que encosta às cordas quem não chega a ser tratado como suspeito é um sintoma de como os alicerces que instruem a cidadania ficam em banho-maria. Muitas pessoas esquecem a teoria que esforçados procuradores do regime ensinam, escorregando para um comportamento que não confirma o princípio da inocência até prova em contrário. As pessoas substituem-se aos profissionais da investigação policial e tiram as suas próprias conclusões apressadas. Ao início, dirigindo apenas olhares desconfiados que esfriam o contacto até entre os conhecidos. Depois, com a mobilização de uma turba covardemente escondida no anonimato que julga antes do tempo, condenando ao desterro social quem nem sequer é acusado pela Justiça.
Por mais que se enraízem os substratos da civilização, o sangue em ebulição de gente dominada por emoções e que depressa escreve a sua sentença pessoal, desautoriza a civilização em que dizem vivermos. Podemos ser Homens das cavernas mesmo no mais belo palco onde (se diz que) passeia a diligente civilização.
Ainda bem que não existe um registo de sintomas de descivilização a ser averbado nos cartões de cidadão. Se não, as dores com as provas materiais de descivilização dariam para falar de um pré-apocalipse dessa civilização.
Uma caderneta de cromos. Como vindimas de anos diferentes, umas melhores, outras piores, outras que não se sabe bem o quê. Os cromos avulsos são uma montanha de nada. Começam a ganhar forma quando aparecem colados na caderneta, no lugar que lhes pertence. Antes, são peças vulneráveis – podem ser extraviados porque a distração não os reservou do extravio com diligência, ou pode um rival ter-se açambarcado por meios ilegítimos de um punhado de cromos que se diz serem mais valiosos.
Os cromos à espera de caderneta não satisfazem a igualdade. Há alguns que têm mais carisma, são mais procurados pelos colecionadores. Outros foram fabricados intencionalmente numa pequena tiragem: sobre eles abrir-se-á um mercado com vivacidade, com colecionadores tresloucados a perderem a cabeça e a pagarem as fortunas que forem pedidas para tomarem posse destas raridades.
Mas um cromo não passa de um cromo. O cromo é o melhor destino da troça de alguém que não dá conta que também não passa de um cromo. Não passamos todos de cromos com a sua dose de risibilidade por conta. Mas somos cromos desmaterializados, não vamos parar às páginas fartamente dedilhadas de cadernetas. Ficamos aquém do estrelato; não saímos do estaleiro das intenções destinadas a não terem paradeiro. As estrelas são os cromos que têm o aristocrático direito de emprestar o rosto a uma caderneta onde são organizados os cromos dantes avulsos. Para depois perceberem que ficam sitiados por uma revoada de deveres.
Muitos são os anónimos que adorariam ter direito a um apeadeiro numa caderneta de cromos. A repulsa pela pose aristocrática é uma farsa. Muitos são os que querem ser titulares de um estatuto acima da ralé, mesmo que façam parte da ralé. A popularidade é pegajosa, pega-se por simpatia. Mas a popularidade é decadente: deixam de poder andar na rua sem que os olhares se fixem nelas, com aquele ar de quem exclama: “olha a fulana!” Os que atingem o estatuto gostariam de o reverter, para obliterar aquele passo que os extraiu da mediania.
Os cromos com direito a apeadeiro numa caderneta ambicionam o (quase) impossível: dissolver essa popularidade para pertencerem à massa anónima que também é cromo sem pertencer a uma caderneta.
what so proudly we hail’d at the twilight’s last gleaming,
whose broad stripes and bright stars through the perilous fight
o’er the ramparts we whatch’d were so gallantly streaming?”
Os aldeões contemplam o obus semienterrado num baldio às portas da aldeia. Contemplam, talvez aliviados por o obus, ao falhar o alvo, ter caído em lugar desabitado. Estão aliviados por não terem ficado estarrecidos se o obus tivesse a precisão desejada por quem o lançou.
A fotografia podia ser lembrada como o exemplo de um tremendo falhanço. A maldita tecnologia que cede sofisticação às armas letais, avivando a natureza sangrenta e desumana da guerra, fracassou com este obus. Foi em vão, o seu lançamento. Não causou vítimas, não despedaçou edifícios, não provocou pânico entre as pessoas do lugar destinado a ser o destino da arma mortífera.
A grelha de leitura deve ser virada do avesso. O erro, o tremendo erro de cálculo que fez despenhar o obus em terra de ninguém, vaticina um êxito desarmante. Desarmante, porque o erro de cálculo que fez cair o obus foi como se tivesse operado a sua desativação. Foi uma arma perdida para o beligerante e um ganho incomensurável medido pelas vidas poupadas e pelos edifícios que não ficaram reduzidos a estilhaços. Na História das guerras, as armas transviadas são um logro apenas para quem as ativou. Ao falharem estrondosamente o alvo, tornam-se um sucesso para o resto das pessoas.
Para os aldeões, o obus semienterrado em terra de ninguém devia ser motivo de celebração. Se fosse às autoridades do lugar, aquele obus ficaria imortalizado ali mesmo, intacto, sem qualquer intervenção humana, como mnemónica de como se pode louvar uma arma mortífera quando ela falha clamorosamente. Como metáfora de um erro que se transforma numa dádiva. Aquele pedaço encardido de metal afundou-se no próprio fracasso. Esse fracasso foi uma oferenda para as pessoas que, infundadamente, teriam sido atingidas se o obus não tivesse sido um erro transfigurado em sucesso.
Para quem observa através de uma lente humanista, os arsenais são sempre deploráveis pela desumanização que encerram. Só se abre uma exceção para aquelas armas que foram vítimas de anomalias e, falhando no propósito intrínseco à sua ativação, poupando as vidas das vítimas sem nome que tivessem sido apanhadas no caminho, se transformam em celebração.
Só se celebram as armas que tiveram a sorte de falhar no seu propósito. Essas, como mal menor, que sejam erguidas em monumento.
Uma ministra (da saúde) pode referir-se às parturientes e recém-mães como “mamãs”? Um circunspecto analista de política internacional (que agora, com o torpedear constante da estabilidade no mundo, aparecem aos magotes) pode referir-se ao filho de um ayatollah morto como “o filho do papá”?
De um lado, a solenidade das palavras. Dizem os mais sérios nestas coisas que as circunstâncias exigem que as palavras sejam esculpidas com critério. Se estamos numa roda de amigos, tomamos a liberdade de usar as palavras sem complexos. Se um copo de vinho acompanhar a conversa, até pode acontecer que a língua se destrave e as palavras ditas excedam o pensamento aceitável noutros círculos também frequentados, em registo mais sério, pelo autor dessas palavras. O que sobra das palavras ditas não é o registo informal do círculo fechado de uma roda de amigos. As palavras têm de se soltar quando podem.
Do outro lado, os que defendem a descomplexidade das palavras. Admitem que as cortinas de fumo que amortecem as palavras são disfarces que ocultam o seu sentido legítimo. Num registo institucional, reclama-se a seriedade das palavras. A solenidade exige o polimento das palavras para que não firam os ouvidos mais sensíveis ao registo institucional. Este zelo atiça a farsa das palavras ditas, que ficam aquém do que seria dito se o registo fosse informal. A diferença entre os dois registos não favorece quem promove um sentido institucional das palavras. Parece que as palavras têm máscaras. Mas estamos treinados para perceber a diferença.
Se o circunspecto analista internacional escorrega para a ironia quando diz “filho do papá” e se a ministra, carinhosamente, menciona as mulheres que foram mães e as parturientes como “mamãs”, os ouvidos até institucionais devem ficar incomodados? Quem mal faz a ironia? Que mal faz somar algum carinho ao discurso político?
Não se defenda a utilização dos afetos na política, que estamos a acabar um período em que o excesso de afetos contaminou a política. Apenas se argumenta a favor da descomplexidade do discurso, para que as pessoas não se sintam presas numa vara de sete paus e sejam forçadas a medir ao grama cada palavra que usam. Com a primeira agravante: de tanto serem pesadas as palavras, de tanto se querer enfeitar o discurso com recursos semânticos sofisticados, as palavras embrulham-se num discurso gongórico, são uma autêntica língua de trapos. E a segunda agravante: de tanto quererem enfeitar o discurso com uma sofisticação acima das suas capacidades, aumenta a probabilidade de entorses à gramática.
É preciso que a simplicidade das palavras fale por si mesma. Esse é o desafio: falar simples e conseguir enviar uma mensagem. Se isso for feito à custa da simplificação, com a mediação de palavras usualmente fora do trânsito discursivo, que a mudança não seja sinal de retrocesso.
Sob todas as camadas, onde se encontra o magma que ensina a esculpir uma identidade? Serão todas essas camadas, umas snobes, outras com propensão para o popular, heterónimos do mesmo nome?
De nós não se diga que somos o campo larvar onde maleitas acometem, que elas colonizam a vontade e não as podemos tutelar. As camadas estão à mercê das doenças que as quiserem consumir, essa pode ser uma hipótese de serventia, como se as várias camadas pudessem ser consumidas porque outras se escondem a caminho das profundezas da alma.
Por vezes, uma exigente convocatória obriga a recorrer a uma camada mais densa, procurando nos meandros aquela que for uma fortaleza à prova de intrusões ou de maquinações congeminadas por conspirações. Uma após outra, descendo pela ampla escadaria onde se entretecem as diferentes camadas, uma será provida para servir de antídoto. Que sejam recusados os apelos contra o desdobramento das camadas sucessivas; não é afeção que expõe uma cabeça sobressaltada, é apenas o antídoto que dissipa as contrariedades que outras camadas menos preparadas não conseguem rechaçar.
As camadas sucessivas são o mercado de heterónimos que cabem dentro do mesmo nome. Mudam as camadas sem ser necessário recorrer a identidades diferentes. As camadas são a planície onde medram os heterónimos, porque à feição das diferentes exigências convém que as mãos se possam munir de camadas que a elas se afeiçoem.
Somos um só nome vertido nas camadas que possibilitam os heterónimos que se acamam. Sem correr o risco de perder o paradeiro: as camadas desfazem-se nos estilhaços que são a prova da sua serventia, deram-se às contrariedades e elas gastaram-se no corpo estrénuo de uma das camadas. Perdida esta camada, outras se propõem a serem as diligentes operárias que desfazem os nomes feios em que vêm disfarçadas as contrariedades.
O magma continua protegido contra as sublevações malévolas que possam condená-lo à usura. As camadas que temos nunca são excessivas.
Um fantasma em carne e osso. Adeja sobre as fundações do futuro, agarrado ao passado que não conseguiu cumprir (ele dirá, ainda ungido do ressentimento que não consegue disfarçar, que não o deixaram ilegitimamente concretizar). Assombra os sucessores com a pose de catedrático de aviário e cobre-os com a humilhação da improficiência.
É um fantasma a cores que já não se esconde atrás de silêncios e exerce o direito (que todos têm) de falar. Diz coisas e muitas. Ajuíza, e muito – dele deve ser o estatuto de superioridade moral. Beneficia de uma incorrigível propensão para o sebastianismo que é apanágio de um povo gasto pela usura do passado que fracassou no cumprimento de promessas. É a centelha que desponta no horizonte de um numeroso séquito que se dividiu em variegadas propostas que participaram nos últimos concursos eleitorais. Os que se exaltam de cada vez que o fantasma de carne e osso assoma à superfície protestam que só ele pode federar os que se dividem em diversas fações dentro da mesma família de ideias.
(Considerar que essas fações fazem parte da mesma família de ideias é um abuso que dissipaas diferenças irreconciliáveis que, se fossem reconhecidas como deviam sê-lo, obstariam a usar a categoria de “fações” como representação de uma só família de ideias dispersa por diferentes sensibilidades).
Um fantasma que não esconde o rancor, pela pose corporal que transpira agressividade por todos os poros, no tom belicoso com que encena a oratória, ainda sem a digestão feita de um casamento de conveniência que o depôs do poder. No verso do rancor avultará a mal escondida intenção de federar as diversas sensibilidades que se reúnem sob a sua saia protetora, mesmo que se proponha aceitar o apoio de radicais e reproduza, com exata simetria, o casamento de conveniência que tanto o indispôs.
Para além dos adeptos que se agarram a messiânicas tábuas de salvação tão do agrado de uma portugalidade fatalmente incorrigível, o fantasma andante é o idiota útil ao serviço dos que se arregimentaram no casamento de conveniência que o condenou ao desterro interior. O trunfo nem precisa de ser atirado para cima da mesa pelos próprios; o seu adversário, em forma de vulto consubstanciado, joga o trunfo a favor daqueles que outrora se mobilizaram para o depor do poder. Validando a teoria dos anticorpos: o cimento de alianças improváveis é provido por personagens que mobilizam a união dos seus detratores.
O fantasma que não esconde o rosto e anda com febre de protagonismo atiça uma retórica combustível que funciona como um arsenal impiedoso sobre o afinal adversário que foi seu delfim no passado. A oposição já não é feita pela oposição, é tecida pelo fantasma extraído da hibernação que já não se limita a gerir silêncios e a atestar as esperanças de uma vasta audiência que não se entusiasma com aqueles em quem votaram. O fantasma continua a povoar muito espaço público para perorar, diagnosticar e subliminarmente criticar sem critério, enredando-se na ambiguidade de quem se limita a falar no exercício da cidadania, mas fundeia as esperanças dos que não escondem uma certa orfandade.
De um lado da trincheira, o aplauso aquece a reabilitação de um cadáver político. Alimentando um sebastianismo sacramental, pois o futuro é sempre a promessa que corrige as fragilidades dos diversos passados – mesmo que este futuro seja, apenas, um passado inteiro como proposta de reciclagem. Do outro lado da trincheira também se aplaude a ressuscitação do fantasma, mas em silêncio. Saberão que a subida a palco do fantasma, já despido da condição de vulto oferecido em promessa, pode ser o gatilho de que precisam para saírem do torpor a que os últimos concursos eleitorais os condenaram. Ser-lhes-ia oferecido o trunfo máximo se o fantasma abrigasse sob a sua asa as várias sensibilidades que agora aparecem divididas, pois precisam da confirmação, como fator de mobilização, da radicalização em curso dos seus adversários. E depois há aquelas verrinosas personagens que se sentam na plateia, exercendo a sua suposta imparcial condição, e que chegam lume à fogueira de um protagonismo em que se procura reabilitar um fantasma saído dos claustros.
A política, e só a política, parece confirmar a teoria da reencarnação, inverificável pela ciência. No caso vertente, uma reencarnação materializada numa versão requentada da mesma pessoa. Os gatos têm sete vidas, segundo a sabedoria popular. E os fantasmas, quantas vidas têm? Mas talvez a interrogação mais avisada seja a seguinte: que serventia tem um fantasma de carne e osso, senão trazer o passado de volta ao futuro (assim condenando o futuro a ser uma mera intermitência do passado), sem acrescentar novidade a um domínio que tanto dela carece?
Com que armas terças o dia? Dizes que estás desarmado – um pacifismo que joga os trunfos contra ti. Insistes: a beligerância, mesmo que seja apenas para prevenir outras beligerâncias, não deixa de ser beligerância. Um estado de sítio contínuo, todos a desconfiarem de todos, porque ninguém sabe quando pode eclodir o primeiro sinal de agressividade passada aos atos.
É como os países que disfarçam diplomacias: contêm-se uns aos outros, conservam um arsenal capaz de destruir os outros num abrir e fechar de olhos. A loucura abateu-se sobre os Homens. Precisam de ter arsenais abundantes para que os outros, a qualquer altura despromovidos à condição de inimigos, não precisem de ativar os seus arsenais. Possuem armas porque os outros também as possuem. As pessoas sentem o fio da navalha que se cola ao cachaço. Pudessem os recursos gastos em armas sido usados em finalidades benéficas para a gente de carne e osso, aquela que se cruza com as outras pessoas da mesma igualha.
Que democracias são estas que se escondem em cenários fantasiados para cativar a atenção dos cidadãos para a obrigação de atualizar os arsenais? Quantas vezes as ameaças que justificam o endurecimento da dissuasão não são fabricadas numa tela onde as ameaças não passam de delírios dos mandantes?
Secretos sempre foram os punhos de renda das diplomacias. Os punhos de renda estão encardidos. Falam o que convém ao ouvido do povo desatento – do mesmo povo que continua a ser cúmplice do carisma dos mandantes. Servem para o papel de idiotas úteis, estes membros do povo que aceitam acriticamente a deriva beligerante. A dignidade fica sujeita a uma hipoteca com termos leoninos. Deposita-se confiança nos mandantes e nas elucubrações de que são inspiradores, sem olhar aos meios, sem sequer fazer perguntas sobre os fins. Quando dão conta, num momento de aperto, são convocados para pegar em armas em nome de uma beligerância de que foram cúmplices por apatia.
É preferível não terçar armas para vencer o braço de ferro com o dia subjacente. É melhor deixar as armas para os orates que imaginam inimigos que querem hipotecar a integridade do território. Os que forem convencidos, trazem armas no coldre mesmo sem estarem à vista.