The Waterboys, “Don’t Bang the Drum” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=6Io0ylts-Yo
“Here we stand on a rocky shore
your father stood here before you
I can see his ghosts explore you
I can feel the sea implore you.”
O dente de marfim mordia um braço à medida que a noite se despojava. Pelo palco passavam figuras improváveis. Um caçador de pulgas, as fotografias ilegítimas de um sacerdote numa praia de nudismo, o príncipe real em noitada de copos agarrado a dois transsexuais, um famoso político acabrunhado depois de ter perdido uma pequena fortuna ao jogo no casino (mas o conceito de pequena fortuna é sempre subjetivo, não é?), uma pessoa fortuitamente apanhada pelos dejetos de uma gaivota apesar do grasnar em forma de pré-aviso, um cenáculo de líderes mundiais onde dominado pela amena cavaqueira e eles combinavam, em segredo, as próximas fricções mundiais (pois isto de os cidadãos se habituarem à antítese da crise pode-os habituar mal), uma atriz de teatro a atirar uma tarte cremosa às trombas do político mais bazófias de todos, um petiz que se recusa a soprar as velas do bolo de aniversário em protesto contra a matança nos matadouros (recusando qualquer explicação catedrática sobre a razão de um matadouro se chamar matadouro), o CEO de uma empresa cotada no PSI20 a convidar um mendigo para a mesa de um restaurante com uma estrela Michelin, a bailarina, tão frágil, a chorar porque torceu um pé a descer a escadaria do CCB e tem medo de perder a próxima temporada de bailado, os patuscos que, em reunião hebdomadária, puxam os galões ao pior marialva que se esconde atrás do verniz, um gato e um cão a comerem da mesma gamela, um escritor a fugir de entrevistas como “o diabo foge da cruz” enquanto lamenta por ninguém se lembrar dele, o aspirante a lente a perorar alongando-se no seu próprio gongorismo, um livro roubado à biblioteca joanina que apareceu perdido num jardim em Viana do Castelo e que um homem do lixo atirou para o lixo, a mulher impossivelmente corcunda que se arrasta pela rua fora sem que alguém lhe veja o rosto, o empregado de mesa que trata os clientes por “chefe” (independentemente de sexo e de orientação sexual), o juiz do tribunal apanhado num lupanar, o primeiro-ministro a jogar boxe com o líder da oposição (sem ser uma metáfora), a jura de todos perante uma bandeira diferente da ajuramentada, e o dente de marfim, enfim, a libertar o braço ensanguentando o chão com todo o veneno que conseguiu desprender.
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