Death Cab for Cutie, “Here to Forever”, in https://www.youtube.com/watch?v=R7jZorZeWro
“I wanna know the measure from here to forever
and I wanna feel the pressure from God or whatever
now it seems more than ever there’s hands on the levers.”
Não é a liberdade enfeitiçada por profetas que conta para o rosário da (assim chamada) civilização. Não é a liberdade patrulhada, sob o pretexto de que, ao não ser patrulhada, pode deixar de ser liberdade, que conta para o inventário das coisas que devem ser retidas como lições. Não é a liberdade mascarada e assimétrica que se encontra no dicionário à prova de desverdade. Não é a liberdade raquítica, mas escondida num fato que encena opíparos manjares que, todavia, se limitam a enxamear armadilhas pelo caminho, que se alinha no fno fio condutor que une as pessoas autenticamente portadoras de liberdade.
É no lugar onde os sonhos se encenam que as sombras estão de sentinela. As palavras disfarçadas de um sentido encantador tecem-se numa esgrima absurda. As pessoas, em vez de aproveitarem as vantagens da serenidade, desassossegam-se com os prolegómenos das outras – os prolegómenos bastam para desatar a reação epidérmica da intolerância como resposta à intolerância. Uma longa travessia por lugares inóspitos, puídos de tantos desexemplos na História coletiva, atira-nos para um estatuto irremediável de precipício. O olvido dos tempos passados trata do resto. Repetem-se os vícios de outrora, que foram a sementeira de beligerâncias trágicas.
A incapacidade de assumir o lugar do outro não é inesperada, pois os outros só conseguem ignorar o lugar onde estamos. Os que quiserem romper com este melancólico estado de coisas arriscam-se a ser párias do avesso: ficam a falar sozinhos, reféns da própria cruzada, destinada ao malogro por falta de adesão. Os muitos outros que até seriam capazes de tutelar a reciprocidade esquivam-se, certos de que, se ousarem a reciprocidade unilateral, o mundo inteiro jura desabar sobre eles.
Sem humildade, afundamo-nos num lodo pútrido onde a decadência da espécie está ajuramentada. Exigimos dos outros o que não estamos preparados para oferecer. Os outros medem-nos pela mesma bússola: se não queremos exercer a generosidade, não esperemos deles a generosidade que em nós se ausenta. Estamos vocacionados para a lógica do mínimo denominador comum como a melhor das hipóteses. Presos à inércia dos outros, ou à vingança surda que devolve na mesma moeda quando deles nos consideramos vítimas, silenciamos a boa vontade e ficamos sitiados pela desconfiança mortífera.
Não acredito em apocalipses, mas parece que estamos há tempo demais a beijar os pés gastos de um apocalipse. Não sei se não hei de começar a acreditar em milagres.
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