12.3.26

CXVI

The Hard Quartet, “Hey” (live at Brooklin Bowl Nashville), in https://www.youtube.com/watch?v=PMLEC1lFm-8


Hey I would like to surrender to your confusion.


Não se pode pensar mal de alguém ou de algo, porque pensar é sempre um bem. 

Pensar mal de alguém ou de algo é tão maniqueísta quanto a impressão que se fica da pessoa ou da situação que leva àquela reação. Pensar mal de algo ou de alguém é atear uma intolerância que guarda em si uma forma má de pensar. Pensar não pode ter equivalência num mal, por mais que haja quem pense que esse nosso pensar motiva uma rejeição.

Mesmo que pensar mal de alguém ou de algo seja motivado pelo que se considere ser a abjeção do sujeito ou da situação, o simples facto de o pensamento ser ateado impede que se diga “penso mal de…”. Pensar nunca é um exercício negativo. Nem quando, no exercício do livre-arbítrio de que assiste a cada um, se tem uma reação epidérmica sobre o que é dito por alguém ou uma situação que motiva repulsa. Ativar o pensamento para reagir é, em si, algo de bom. 

Dizer “penso mal de...” é apenas uma expressão enraizada nos costumes da língua que peca por defeito de significação. É a necessidade de sublinhar à partida que nos opomos a alguém, no que diz ou na situação que causou, que traz o substantivo qualificativo a tiracolo. A reação de discordância dispensa o qualificativo, que pode contaminar o pensamento ativado. Tem sempre de se partir da regra fundacional de que qualquer tipo de pensamento é bom por definição. Mesmo quando esse pensamento motiva discórdia dos outros ou, em situações-limite, é motivo de reprovação quase unânime. O pensamento que esse pensamento gera é bom. Não se pode materializar na fórmula “penso mal de…”, porque não é o sujeito ou o objeto sobre os quais recai o pensamento que arca com o opróbrio; é todo esse pensamento que acaba contaminado. 

E mesmo que o pensamento contra o qual se reage seja, desde a nossa posição, indefensável e faça disparar um repúdio categórico, as exigências de tolerância vedam a utilização da fórmula adversativa. Afirmar que se pensa mal de alguém é abrir o precedente para que outros digam o mesmo sobre o pensamento que exercemos. A reciprocidade e a tolerância são válidas para todos, não abrem exceções para aqueles que sejam acantonados na posição de párias. Se assim não for, um dia destes, o cobertor da intolerância será costurado sobre sucessivas manifestações de “penso mal de...”, até que todos pensem mal uns dos outros e das situações de que somos responsáveis. 

Nessa altura, quando já ninguém suportar ninguém, dir-se-á, e a eito, que se pensa mal deste ou daquele ou da situação, qualquer situação, por eles criada. O abismo estará mais perto do que nunca.

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