2.3.26

CVIII

Ólafur Arnalds, “Þú ert sólin”, in https://www.youtube.com/watch?v=veYE2tKFWys


Toward which I look

I see the deepest dark (…).”


Com que armas terças o dia? Dizes que estás desarmado – um pacifismo que joga os trunfos contra ti. Insistes: a beligerância, mesmo que seja apenas para prevenir outras beligerâncias, não deixa de ser beligerância. Um estado de sítio contínuo, todos a desconfiarem de todos, porque ninguém sabe quando pode eclodir o primeiro sinal de agressividade passada aos atos.

É como os países que disfarçam diplomacias: contêm-se uns aos outros, conservam um arsenal capaz de destruir os outros num abrir e fechar de olhos. A loucura abateu-se sobre os Homens. Precisam de ter arsenais abundantes para que os outros, a qualquer altura despromovidos à condição de inimigos, não precisem de ativar os seus arsenais. Possuem armas porque os outros também as possuem. As pessoas sentem o fio da navalha que se cola ao cachaço. Pudessem os recursos gastos em armas sido usados em finalidades benéficas para a gente de carne e osso, aquela que se cruza com as outras pessoas da mesma igualha. 

Que democracias são estas que se escondem em cenários fantasiados para cativar a atenção dos cidadãos para a obrigação de atualizar os arsenais? Quantas vezes as ameaças que justificam o endurecimento da dissuasão não são fabricadas numa tela onde as ameaças não passam de delírios dos mandantes? 

Secretos sempre foram os punhos de renda das diplomacias. Os punhos de renda estão encardidos. Falam o que convém ao ouvido do povo desatento – do mesmo povo que continua a ser cúmplice do carisma dos mandantes. Servem para o papel de idiotas úteis, estes membros do povo que aceitam acriticamente a deriva beligerante. A dignidade fica sujeita a uma hipoteca com termos leoninos. Deposita-se confiança nos mandantes e nas elucubrações de que são inspiradores, sem olhar aos meios, sem sequer fazer perguntas sobre os fins. Quando dão conta, num momento de aperto, são convocados para pegar em armas em nome de uma beligerância de que foram cúmplices por apatia. 

É preferível não terçar armas para vencer o braço de ferro com o dia subjacente. É melhor deixar as armas para os orates que imaginam inimigos que querem hipotecar a integridade do território. Os que forem convencidos, trazem armas no coldre mesmo sem estarem à vista.

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