5.3.26

CXI

Turnstile, “I Wanna Be Adored” (cover Stones Roses), in https://www.youtube.com/watch?v=sZgZotipa-0


I don’t have to sell my soul 

he’s already in me.


Uma ministra (da saúde) pode referir-se às parturientes e recém-mães como “mamãs”? Um circunspecto analista de política internacional (que agora, com o torpedear constante da estabilidade no mundo, aparecem aos magotes) pode referir-se ao filho de um ayatollah morto como “o filho do papá”?

De um lado, a solenidade das palavras. Dizem os mais sérios nestas coisas que as circunstâncias exigem que as palavras sejam esculpidas com critério. Se estamos numa roda de amigos, tomamos a liberdade de usar as palavras sem complexos. Se um copo de vinho acompanhar a conversa, até pode acontecer que a língua se destrave e as palavras ditas excedam o pensamento aceitável noutros círculos também frequentados, em registo mais sério, pelo autor dessas palavras. O que sobra das palavras ditas não é o registo informal do círculo fechado de uma roda de amigos. As palavras têm de se soltar quando podem.

Do outro lado, os que defendem a descomplexidade das palavras. Admitem que as cortinas de fumo que amortecem as palavras são disfarces que ocultam o seu sentido legítimo. Num registo institucional, reclama-se a seriedade das palavras. A solenidade exige o polimento das palavras para que não firam os ouvidos mais sensíveis ao registo institucional. Este zelo atiça a farsa das palavras ditas, que ficam aquém do que seria dito se o registo fosse informal. A diferença entre os dois registos não favorece quem promove um sentido institucional das palavras. Parece que as palavras têm máscaras. Mas estamos treinados para perceber a diferença.

Se o circunspecto analista internacional escorrega para a ironia quando diz “filho do papá” e se a ministra, carinhosamente, menciona as mulheres que foram mães e as parturientes como “mamãs”, os ouvidos até institucionais devem ficar incomodados? Quem mal faz a ironia? Que mal faz somar algum carinho ao discurso político? 

Não se defenda a utilização dos afetos na política, que estamos a acabar um período em que o excesso de afetos contaminou a política. Apenas se argumenta a favor da descomplexidade do discurso, para que as pessoas não se sintam presas numa vara de sete paus e sejam forçadas a medir ao grama cada palavra que usam. Com a primeira agravante: de tanto serem pesadas as palavras, de tanto se querer enfeitar o discurso com recursos semânticos sofisticados, as palavras embrulham-se num discurso gongórico, são uma autêntica língua de trapos. E a segunda agravante: de tanto quererem enfeitar o discurso com uma sofisticação acima das suas capacidades, aumenta a probabilidade de entorses à gramática.

É preciso que a simplicidade das palavras fale por si mesma. Esse é o desafio: falar simples e conseguir enviar uma mensagem. Se isso for feito à custa da simplificação, com a mediação de palavras usualmente fora do trânsito discursivo, que a mudança não seja sinal de retrocesso.

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